16 de maio de 2018

Review à nova "música" de Luciana Abreu



As notícias só falam da violência no Sporting e dos confrontos na Faixa de Gaza - este último com menos destaque, obviamente - e esquecem-se que há coisas piores a acontecer em Portugal, neste momento. Enquanto se discutem quantos pontos levou o Bas Dost da cabeça e se o Jorge Jesus levou uma cabeçada standard ou à Cais do Sodré, o mundo ignora um dos maiores atentados terroristas de que há memória. Falo, claro, sobre a nova música da Luciana Abreu que tem como mote o apoio à selecção das quinas para o mundial que se avizinha. Aliás, a música saiu ontem, tal como as agressões em Alcochete a a escalada do conflito em Gaza: é a tal teoria do efeito borboleta "Quando uma Luciana bate as cordas vocais em Portugal, pode haver um terramoto no Japão".

Sinto que estou a trair a minha verdadeira musa, senhora Ana Malhoa, ao fazer uma review à nossa eterna Floribela, mas depois de ver o vídeo, achei que era meu dever escrever sobre este tema. Para quem ainda não teve o azar de ver, aqui fica e, em seguida, a review profissional a que vos tenho habituado.


Ora bem, o vídeo começa com uma batida a fazer lembrar o barulho de um Spectrum a carregar jogos, acompanhado de um xilofone tocado pelo meu avô com Parkinson. Há uma voz que diz "Miss LA", mas também pode ser "Mi sê lei" o que em crioulo macarrónico quer dizer "Eu sou a lei". Segue-se um riso e um "De Portugal para el mundo", porque nada diz mais "apoio à selecção portuguesa" como começar a música em castelhano. Lamento, mas duvido que esta música vá para o mundo.


É certo que somos dos maiores exportadores de azeite, mas parece-me que este não é extra-virgem.

Vemos um puto a imitar o filho do Cristiano Ronaldo, mas que será, certamente, contrafacção. Em vez do Cristianinho, é o Cristininho, alugado na Feira do Relógio por uma sande mista. A voz masculina diz qualquer coisa que não se percebe bem, mas como devem ser só palavras aleatórias e sem sentido algum, não se perde nada. Aparece, finalmente, a Luciana e começa a música de apoio a Portugal... em inglês. Se a a Nelly Furtado pode, porque é que a Luciana não pode? Deixem lá de criticar tudo. Miss LA, vestida com um baby grow de ganga, exibe o seu corpo impecável para quem já deu à luz três ou quatro vezes, já que no caso de gémeos não sei como é feita a contabilidade. Se ela investisse tanto tempo a escrever letras e aprender música como a ir ao ginásio, não estaríamos aqui a ter esta conversa. A letra, traduzida, diz isto:

Toda a gente sonha em grande / 
Paixão sem controlo
O sangue fala mais alto / E acreditamos que somos um
Estamos juntos / Alimenta a tua alma
Usa controlo / Sê audacioso e continua vivo
Tenta voar / Tu consegues se quiseres / Acredita e não te escondas

Gosto do apelo ao uso do preservativo e do incentivo ao suicídio nos últimos versos. Uma espécie de discurso anti-motivacional que termina com um "Vamos latinos" dito, imagino eu, pelo DJ Maci que é italiano. Nada faz sentido, não sei se já tinham percebido. Nisto, entra o refrão, com a Luciana Abreu disfarçada de Tatiana Neves, em que canta várias onomatopeias e o título da música "Pula pula". Penso que pode ser ofensivo, já que "pula" é o nome dado aos brancos em Angola e o William Carvalho pode ficar a sentir-se de fora. Existe toda uma coreografia que até é capaz de pegar se nos lembrarmos que as pessoas ainda dançam o eskema em algumas discotecas. A música segue, agora em castelhano que isto é preciso disparar em todas as direcções para ver se se tem sorte; a meio do castelhano, devo admitir que há uma transição bastante suave para o português em que a Luciana diz "Corações ao alto e samba no pé". É isso, Luciana... samba no pé, Kizomba no joelho e Duro no Cú. "Portugal vai mostrar como é que é", aquela frase que dá para tudo: pode mostrar como é que se perde, pode mostrar como é que se empata, etc.

Segue-se uma chamada dos nomes de jogadores portugueses (com sotaque castelhano) e gosto que não tenham arriscado e só digam os nomes que estarão certos no Mundial, não fossem os outros confundir e pensar que isto era a convocatória oficial e depois ficar desiludidos (chamaram-me à atenção que é dito o nome do Danilo que não irá ao mundial devido a lesão. Temo que esta música não ajude na sua recuperação)Segue o disco e toca o mesmo, com a Luciana a dizer "Mister Santos" (com sotaque inglês), "It's true, Portugal in the house" (aliás, "Portxugal"). Refrão, mais uma vez, e entra uma batida de samba, com bailarinas fantasiadas de Carnaval de Torres Vedras e a dançar, intercaladas com um bailarino de capoeira porque, relembro, isto é uma música de apoio à selecção portuguesa e é preciso não ignorar a história: sem os escravos trazidos por Portugal não haveria capoeira nem samba. 

Para mostrar que é uma poliglota, ainda lança um russo ali perto do final com um "Spasiba Russia" que quer dizer "Obrigado Rússia", embora ela pareça dizer Racha, mas tudo bem, não vamos estar a exigir que fale bem quatro línguas. E pronto, é isto.


A música fica no ouvido? É capaz, mas otite também fica. 

Isto é, a meu ver, a pior música de sempre. Não faz sentido do início ao fim, tanto musicalmente como em termos de letra e, muito menos, o vídeo. Já estou a ver o produtor "Estou aqui já com ideias para esta música. Que tal se a gente metêssemos aqui uma gaja a dançar ballet, um gajo a dar toques na bola porque isto é sobre futebol, depois duas gajas a sambar e um capoeirista porque coiso, mas também curtia ter tipo dança hip hop, ginástica, e dança contemporânea... Sinto aqui falta de qualquer coisa... ah, já sei, preciso de um gajo com aqueles paus com pano no ar a esvoaçar que fica muita bonito. É isso, manda vir tudo que no fim vais ver que vai fazer sentido." Não faz.

A música não serve para apoiar selecção alguma, acho, até, que pode prejudicar. É apenas um aproveitamento do mundial para ver se o pessoal estrangeiro vê e há o lançamento de carreira internacional. É pior do que Marial Leal? É. A Maria Leal não tem voz nem meios de produção e é uma pobre coitada da qual se aproveitaram. A Luciana Abreu tem uma voz tremenda e meios para produzir coisas com qualidade, mas fez esta merda. A Maria Leal tem desculpa, a Luciana não. Claro que estou a ser injusto, já que seria ingénuo da minha parte esperar que alguém que fez uma música dedicada ao marisco e cujas filhas se chamam Lyonce Viiktórya, Lyannii Viiktórya, Amoor e Valentine, fizesse uma música melhor, mas isto não passa de uma imitação barata da Ana Malhoa, artista que, ao menos, é coerente e competente no estilo musical de merda que escolheu. Como sempre, estas críticas não têm nada de pessoal, acredito que seja boa pessoa e a prestação dela no Último a Sair foi excelente e de quem tem fair play e sabe representar. Que ela sabe cantar, também ninguém tem dúvidas, da mesma forma que ninguém duvida que ela só tem feito, na minha opinião, música de merda.

Já fiz muitos sacrifícios devido a trabalho: horas extra, aturar clientes mal educados, fazer stand up em sítios sem condições, mas nunca tinha feito um sacrifício tão grande como ver e ouvir este vídeo 10 vezes (DEZ) para conseguir fazer esta review. Espero que valorizem o meu esforço e que partilhem. Voltamos a falar para a semana que agora preciso de enfiar duas agulhas nos ouvidos e esfregar-me todo com aguarrás.



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