17 de junho de 2013

O professor e o médico



Nunca vi ninguém, num discurso, após vencer qualquer tipo de prémio ou distinção, agradecer aos professores que teve, ou a algum em particular. Porquê? Ouve-se muita gente dizer que a educação é a base de tudo, mas no entanto, idolatra-se um médico e não um professor. Porquê? Porque um médico salva vidas?  

Um médico pode salvar da morte mas um professor pode salvar de uma vida de ignorância. 

O que é mais importante? Será por vermos no médico uma imagem quase de Deus e já se sabe que com Deus não se brinca nem se questiona? É certo que há professores maus. Péssimos! Há muitos professores que não sabem lidar com pessoas, mas há também maus médicos. Há péssimos médicos! Há médicos que só o são pelo estatuto e dinheiro. Porque tinham boas notas e os pais queriam um médico na família. No entanto não se toma a parte pelo todo como é feito em tantas outras profissões, como por exemplo nos professores.

Tive excelentes professores mas também tive outros que nem esse título deveriam ter. Tive professores que ensinaram mas que sobretudo educaram. Tive professores que se preocuparam e que agiram. Tive professores que me repreenderam mas que sobretudo me valorizaram. Professores que me fizeram sentir que não era apenas mais um, que era especial. A mim e a todos. 

Em alguns países (Finlândia por exemplo), os professores são o topo da hierarquia das profissões mais valorizadas. Faz sentido já que todos nós vamos lidar com eles, muitos e bons anos, os melhores anos da nossa vida. Enquanto com os médicos, se tudo correr bem é vê-los o menos possível. Até porque o mais provável e que quanto melhores forem os teus professores melhores serão as hipóteses de puderes pagar a um bom médico no futuro. Ah e é óbvio que sem professores não haveria médicos, enquanto que sem médicos continuaríamos a ter bons professores. Morriam era mais cedo.

Em tempos se calhar tiveram muitas regalias, muitas férias, ordenado à hora maior que a maioria. Se calhar sim. Mas era merecido para quem levava a profissão a sério. É triste ver que as pessoas por vezes estão mais interessadas em que os outros fiquem com menos direitos, para ficarmos todos equiparados, ao invés de subir os direitos de quem tem menos e ficarmos assim em igualdade.

Não só a hierarquia está trocada, como dentro do ramo do ensino isso acontece. Não percebo porque se valoriza um professor universitário de forma que não se vê um professor primário ser. Valorizo tão mais um professor que tem a responsabilidade de ajudar a moldar uma personalidade durante 4 anos, todos os dias, do que um professor Universitário que só entra nas nossas vidas 6 meses a ensinar para uma plateia e não para indivíduos  Muito menor a responsabilidade. Também os há excelentes, mas é mais fácil disfarçar quando são maus.

Por isso faz-me muita confusão ver tanta gente contra os professores. É certo que todos estamos fartos de ver o senhor de bigodinho a falar na TV, mas ao menos é de louvar que sejam uma classe unida e que luta. Não dá em nada já se viu, mas lutam. Com sol e chuva, enquanto outros ficam a queixar-se na esplanada com uma mini na mão. Mas puseram-nos uns contra os outros. Conseguiram colocar-nos a todos nós que temos razões de queixa a reclamar uns contra os outros. É impossível protestar, sendo por greves ou por outras formas, sem entrarmos no quintal uns dos outros. Mas ninguém quer ver as suas flores esmagadas por um bem maior.

Um dia, quando nos sobrarem maus professores, que não se preocupam, que não repreendem nem valorizam, que não ensinam, só debitam. Se esse dia chegar seremos todos mais pobres. Até podemos ser todos médicos, mas seremos mais pobres.





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