28 de setembro de 2015

Mitos urbanos portugueses desmistificados



Mitos urbanos, quem nunca ouviu falar deles? Todos nós já soubemos de vários e os ajudámos a propagar, seja no boca à boca, ou através daquelas correntes de email palermas. Hoje, vou ajudar-vos a distinguir a realidade da ficção e desmistificar os principais mitos urbanos de Portugal. Isto foi fruto de uma investigação intensa que passou por ler outros artigos que já os tinham desmistificado antes. Sou muito bom a investigar.

Reinaldo rebentou com uma Doce
Este é um dos mitos mais conhecidos deste nosso paraíso à beira mar plantado. Quem nunca ouviu falar, e tomou como certo, que no princípio dos anos 80 o ex-futebolista do Benfica, Reinaldo, fez uma entrada por trás a pés juntos na Laura Diogo que ela teve de sair de maca directa para o hospital para suturar a brincadeira? Pois é, infelizmente, parece que esta história é completamente falsa! Nunca foi provada e não existem registos no Hospital de Santa Maria onde se leia «Loira docinha dá entrada toda arrebentadinha». Já não bastava à Laura Diogo ser considerada a menos talentosa do grupo, onde a acusavam de ir a palco de microfone desligado, como ainda iria ficar com a fama e sem o proveito de levar com a perche gloriosa no rabo. Este boato teve consequências visíveis já que as vendas dos discos das Doce desceram a pique e Reinaldo mudou-se para o Boavista e nunca mais foi o mesmo. Portugal a dar um ar de sua graça no que toca a toques de racismo e falso puritanismo. Fica assim desmistificado este mito e retoma a liderança isolada o único arrebenta-bilhas lusitano: Sr. Arquitecto.

Urina de rato nas latas
O ano era o de 1998 e andava eu no 8º ano quando este mito surgiu em força, mostrando que a Internet, ainda muito jovem, também servia para espalhar treta. Muita gente passou a ter medo de beber de latas de refrigerantes, depois do boato sobre o falecimento de uma mulher que havia bebido de uma lata que tinha um xixizinho de rato. Eu próprio, meio hipocondríaco desde novo, deixei de beber durante uns tempos. O meu irmão ainda hoje só bebe Coca-Cola se houver de garrafa. Ao que parece, essa mulher nunca existiu e a bactéria da urina de rato, embora perigosa, nunca sobreviveria sem estar em meio aquoso e morreria ao entrar em contacto com os nossos sucos gástricos. O açúcar dos refrigerantes continua, portanto, a ser a única coisa que devemos temer.

Lojas chinesas e o tráfico de órgãos
A bela e boa xenofobia portuguesa a dar origem a um mito lendário. Decorria o ano de 2005 quando um email começou a circular dando conta para os perigos de entrar em lojas chinesas, dizendo que um rapaz teria sido raptado para tráfico de órgãos. A polícia desmentiu e o caso chegou mesmo a ser investigado pois difundir boatos xenófobos é crime. Com tanta população na China e com uma alimentação mais saudável, acham mesmo que eles iam arriscar roubar rins e iscas de fígado português? Tenham juízo. O único perigo de entrar numa loja de chineses é mesmo o de sairmos de lá com artigos que só vão funcionar uma vez.

Não há óbitos de chineses em Portugal
Continuando ainda na xenofobia contra os chineses, não contentes em tentar estragar-lhes o negócio das bugigangas, surgiu o mito de que não havia mortos chineses registados em Portugal e que, por isso, só poderiam estar no porco agri-doce. Aquela carne é um bocado estranha, é um facto, mas dai a ser chicha de chinês idoso é parvoíce, até porque assim sendo seria mais rija. Estes dados já foram investigados e dão conta de que o número de óbitos de olhos em bico é o normal para o tamanho da comunidade que reside em Portugal. Outro elemento que pode ter influenciado esta teoria é facto dos chineses, quando já estão velhos e acabados, gostarem de voltar ao seu país de origem para serem lá enterrados. Por isso, já sabem, quando a carne vos parecer estranha não pensem que é a nádega esquerda do Mister Miyagi. É provavelmente gatinho.

Carlos Paião foi enterrado vivo
Um dos mitos mais conhecidos e dado como verdadeiro por quase toda a gente. Diz a lenda que exumaram o corpo de Carlos Paião e que os ossos dele estavam numa posição estranha e que o caixão estava arranhado e com pedaços de unhas lá cravados. Não se sabe bem como surgiu este mito urbano mas o que é certo é que é treta. «Como é que sabes ó Guilherme?!», perguntam alguns de vós muito indignados. Porque a namorada dele disse que o corpo foi autopsiado antes de ser enterrado, por isso se ele ainda tinha alguma coisa a estrebuchar tê-lo-ia feito na marquesa quando lhe enfiaram um bisturi no bucho. Diz que o acidente que ele sofreu foi tão brutal que teria sido impossível alguém sobreviver e que lhe tiveram de colocar carradas de pó de arroz para ir bonito ter com o criador.

Seringas com SIDA no cinema
«Tem cuidado ao sentares-te no cinema! Diz que andam a deixar seringas com SIDA!», chegou-me a dizer a minha mãe depois da propagação geral desta lenda. Dizia-se que eram vários os casos de pessoas que se sentavam e picavam os glúteos quais Belas Adormecidas e encontravam uma seringa com um papel onde se lia: «Tens SIDA. Bem vindo ao mundo real.». Diz que é mentira e que nunca foi reportado nenhum casos desses e, mesmo que não fosse treta, é sabido que o vírus da SIDA sobrevive dois ou três minutos numa seringa infectada. Por isso, quem apanhou SIDA no cinema foi só mesmo quem praticou o coito desprotegido com alguém infectado, numa daquelas sessões vazias de matiné de um filme francês.

Político ataca no Parque Eduardo VII
Um dos mitos mais difíceis de desmontar e que ainda hoje permance um mistério. Se é certo que nunca se provou, este é daqueles que também não se consegue mostrar que não é verdade. Reza a lenda que um político influente se passeava no Parque Eduardo VII e que por lá tinha o apelido Catherine Deneuve. Na altura do escândalo Casa Pia, isso foi mesmo referido pelos media franceses aquando de uma lista de possíveis implicados no caso de pedofilia. Parece-me pouco provável que um político arriscasse andar nessa vida sabendo que poderia ser fotografado ou filmado. Se é para ser puta, fica na Assembleia da República que vai dar quase ao mesmo. Ah, espera, eles são os chulos.

Arrastão em Carcavelos
O quê? O arrastão de Carcavelos é um mito urbano? Não é possível! É sim senhor. Parece que o tão famoso e famigerado arrastão não passou de uma conversa de telefone estragado, para o qual contribuíram a polícia e os media. Quem investigou o caso garante o seguinte: houve desacatos entre dois ou três rapazes com o dono de um bar e o gajo do bar ligou para a polícia e exagerou. A polícia veio armada de caçadeiras e entrou pelo areal pronta para aviar fruta em pretos, como eles tanto gostam. Nisto, as pessoas que estavam na praia assustaram-se e começaram a correr com os seus pertences, juntamente com o pessoal mais moreno que corria da polícia porque já sabia que mesmo não tendo nada a ver com a situação, ia levar bastonada no lombo. Toda a gente sabe que a polícia tem alguma dificuldade em distinguir os pretos uns dos outros. Este cenário de caos é o que se vê nas fotografias e que foi veiculado pelos media que, como todos sabemos, gostam pouco de sangue. Apenas houve uma queixa de roubo na polícia, o que diz bem sobre a dimensão deste arrastão. Arrastões a sério é no Brasil e nos lares de idosos.

Morte, violação ou boca de palhaço?
Há relativamente pouco tempo surgiu a notícia que dava conta de um surto de psicopatia nas ruas da noite Lisboeta. Um grupo de rapazes abordava raparigas incautas e fazias-lhes essa pergunta. Elas, ao pensar que era uma brincadeira, escolhiam a terceira opção, até porque seria sempre a menos má. Nisto, os patifes rasgavam-lhes os cantos da boca até às orelhas, com o auxílio de uma faca, fazendo delas jokers à força. O mito alastrou até às ilhas e as autoridades contactadas dizem que nunca houve nenhum caso destes. Claramente um mito lançado por xoninhas adeptos do Batman e que queriam que as raparigas escolhessem violação, ao saber que a terceira hipótese as ias fazer gastar o dobro em bâton e maquilhagem.

Ratos gigantes em Mafra
Um dos mitos mais antigos de Portugal dá conta da existência de ratos gigantes que inundam os túneis subterrâneos do convento de Mafra. Ratos esses que seriam alimentados com cadáveres de cães, gatos e vacas, dados por militares que assim tentam impedir que estes monstros roedores invadam a cidade. Parece um cenário saído de um livro de "Uma Aventura" mas há muito boa gente a acreditar que é verdade. O mito tem origem na morte de um militar que caiu nos esgotos e foi encontrado com sangue e ratos à volta. «Meu general, o agente Casimiro tropeçou e deu com os queixos no chão e faleceu!», tem muito menos encanto do que «Meu general, o Casimiro estava a fazer a ronda e foi atacado por ratos gigantes do tamanho de póneis! Arrancaram-lhe os tomates com uma dentada!». E foi assim, porque os homens gostam de exagerar na sua masculinidade, que surgiu o mito.

Bónus: Ricky Martin e a manteiga de amendoim.
Para terminar, deixo-vos com um mito internacional. A famosa história da rapariga que não sabia que estava a ser filmada e que tinha o Ricky Martin escondido no armário quando chegou a casa. Segundo a lenda, fazia tudo parte de uma surpresa para o programa espanhol "Sorpresa, sorpresa", dando logo a entender que os espanhóis têm mais criatividade para lançar boatos do que para nomes de programas. A rapariga teria chegado a casa, tirado a roupa e espalhado manteiga de amendoim na patareca sem ser para fins de hidratação, mas sim para o seu cão lamber. Isto tudo em directo só se tendo conseguindo mandar a emissão abaixo quando o mal já estava feito. A rapariga ter-se-ia suicidado algum tempo depois, dada a vergonha de ter usado manteiga de amendoim quando toda a gente sabe que os cães preferem paté de pato. Este mito tomou proporções épicas, alastrando-se para todo o mundo, inclusivamente Portugal onde é dado como verdadeiro por muitos. Não é, lamento informar-vos. O canal de TV até se ofereceu para dar uma recompensa de cinco mil euros a quem tivesse uma cópia da gravação e, claro, ninguém se chegou à frente. Não há registos de nada e foi tudo treta. A única parte verdadeira é que nessa altura o Ricky Martin estava efectivamente ainda dentro de um armário.

E pronto, é isto. Espero que tenham ficado esclarecidos e espero não ter destruído muito o vosso imaginário infantil. Na era da Internet os mitos propagam-se à velocidade da luz e são ainda mais difíceis de desvendar, mas boatos sempre existiram e com eles quem garanta que são verdadeiros, como por exemplo:
  • Adão e Eva existiram mesmo;
  • Maria era virgem;
  • Jesus andou sobre a água;
  • Jesus curou um cego com truques de magia;
  • Jesus ressuscitou e ascendeu aos céus.





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