25 de fevereiro de 2016

Para quando o velório da CM TV?



A CM TV não é propriamente um bastião do bom gosto, já todos sabemos há muito tempo. O Correio da Manhã, seja em papel ou na televisão, faz do seu negócio o jornalismo e o entretenimento de retrete. Por jornalismo entenda-se dar notícias sem verificar as fontes, sempre com uns pozinhos de sensacionalismo que dão aquela receita irresistível para quem tem mau gosto e/ou é pouco inteligente.

Hoje, a CM TV decidiu transmitir em direto o velório de uma das crianças que morreu em Caxias, naquele caso que se está a tornar bastante mediático. Sim, dedicaram o programa inteiro de duas horas a acompanhar o velório de uma criança de quatro anos de idade, alternando com imagens do funeral da irmã que foi há uns dias. Trouxeram comentadores e "especialistas" para irem enchendo as duas horas de programa. Os anfitriões das Manhãs da CM TV são o Nuno Graciano, o tio Careca, e a Maya, a tia. Os mesmos personagens que há uns tempos, num vídeo que ficou viral, ofendiam o humorista Rui Sinel de Cordes devido a uma crónica que ele tinha feito sobre cancro, acusando-o de ser um ataque «deplorável» à atriz Sofia Ribeiro. Foram vários os insultos que discorreram sobre o Sinel de Cordes. Nuno Graciano apelidou-o de «besta» o que até me parece que ele achará um elogio, e a Maya disse que era um «humorista sem h» que a meu ver é só um erro ortográfico.

Aposto que o público da CM TV sempre escreveu umorista.

Acho que todos podemos ser moralistas e criticar e achar que somos as melhores pessoas do mundo. Convém é conseguirmos olhar para nós primeiro e ver se temos telhados de vidro. Não vou estar aqui a defender o Rui Sinel de Cordes, até porque ele não precisa. Não é meu amigo e apenas o conheço superficialmente por ter feito um curso de escrita de humor dele. Depois disso estive com ele duas ou três vezes onde de pouco mais se falou do que conversa de circunstância. Por isso, a minha opinião é imparcial e nem é pelo facto de alguns pensarem que somos colegas, até porque eu não sou humorista nem vivo das piadas ou da escrita que faço. Se gosto do humor dele? Algum. Acho que tem coisas boas e outras mais fracas. E quando digo fracas não estou a referir-me que são ofensivas ou não, simplesmente não lhes acho tanta piada. Agora, como também faço incursões pelo humor, por vezes negro, sei que é impossível acertar em todas as piadas e que sem as tentativas falhadas não há lugar para as tiradas geniais. Mas mesmo que não achasse piada a nada do que ele faz ou já fez, a minha opinião continuaria a ser a mesma: é errado tirar-se conclusões sobre o carácter de alguém apenas com base nas suas piadas. A empatia e a compaixão não é diretamente proporcional à negritude das piadas de um individuo. Por vezes, é até o inverso.

O velório em direto no programa de hoje foi mais uma prova (como se fossem precisas mais) de que em terra de burros, quem é hipócrita é rei. Que moral é que têm uns palermas que fazem da vida dar notícias de merda e acompanhar em direto velórios de crianças? Que moral é que tem uma gaja que ficou conhecida por burlar pessoas? Sim, burlar! A não ser que ela me apresente provas científicas, obtidas em laboratórios independentes, de que o tarô, os signos, e as consultas de merda que ela faz pelo telefone funcionam, tudo não passa de uma burla. «Só acredita quem quer!» dirão alguns. Sim, é verdade, o problema é que é fácil fazer acreditar quem está frágil e precisa de crer em algo, por muito ridículo que seja.

Cheguei a casa e estive a ver o programa, para não estar a escrever este texto sem conhecimento de causa. Senti alguma repulsa, mas fui forte e não vomitei o jantar. Entre vários comentários e julgamentos ridículos de quem baseia as suas opiniões nas notícias das capas dos jornais, especialmente do Correio da Manhã, destaco apenas o fim da emissão: a Maya terminou o programa a dizer que nada foi por acaso e que as filhas queriam ficar com o pai e que agora estão juntas no céu. Tudo isto porque ela é muito boa a interpretar o simbolismo do universo e que esses sinais valem mais do que as perícias legais. Juro que ela disse isto! Olha que atrasada mental, hein? Armada em campeã da moralidade e de detetive do mundo do faz de conta. Não metas mais tabaco que não é preciso, Maya. Por outro lado, o Nuno Graciano terminou o programa a dizer que a última parte foram dez minutos à Benfica. Uma piadola futebolística para alivar o ambiente o que só mostra que o tio anda desatento e já devia estar careca de saber que com assuntos sérios não se brinca! Brincar com futebol?! Que indelicadeza, Nuno! Isso é o assunto mais sério com que se pode brincar em Portugal.

A bem ver, a culpa não é do Correio da Manhã e dos seus apresentadorzinhos, é das pessoinhas que estão em casa a ver o velório de uma criança, a ver se conseguem ver o corpo inchado pelo afogamento, nem que seja de esguelha. «Deixai-me ver nem que seja uma orelhinha, meu senhor» rezarão alguns no alto da sua moral e da sua curiosidade mórbida. São as mesmas pessoas que dizem que com coisas sérias não se brinca, aposto. São as mesmas pessoas que acham que uma piada define o carácter de alguém. São essas pessoas que vêem esta merda enquanto tecem comentários ao género «Ah, viste o decote da tia da criança? Quem é que vai assim para um funeral?» e «Havia ali uma senhora que não estava a chorar o suficiente. Cá para mim ainda tem culpas no cartório.». Sim, porque estas pessoas só estão bem a julgar os outros. 

São juízes de bancada e só lhes falta o martelo porque o devem ter enfiado no cu em vez de lá enfiarem as suas opiniões de merda.

Se há alguma coisa que qualquer pessoa inteligente já não espera do CM é dignidade. Resta-nos sonhar que apareça alguma às pessoas que lhe dão audiência. Só faltava haver também uma CM FM onde tinham transmitido o funeral em relato. Dou apenas um lamiré daquilo que o Correio da Manhã podia fazer (ler com voz de relato):

"E lá vai o padre, diz a oração e que a criança não merecia isto mesmo apesar de ter sido concebida em pecado no primeiro encontro. O pai da criança chora, quase que se afoga nas lágrimas! Quase que se afoga, perceberam? E lá vem o caixão, carregado por quatro homens robustos. Chega à entrada a cova, fazem a paradinha e o caixão entra no buraco! É enteeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeerrroooo! É sete palmos abaixo da terra! É apneia!!! É velório espetáculo, caros ouvintes!"

Volto a reforçar que isto não tem nada a ver com ser o Rui Sinel de Cordes nem este texto é uma defesa a ele. Sei que há muita gente que ganha visibilidade a lamber rabos a humoristas alheios, mas eu prefiro fazer o meu caminho sozinho e ir à volta. Mas, mal vi este acontecimento, lembrei-me logo dele, ainda bem antes dele ter escrito sobre este assunto no seu Facebook.

Lembrei-me logo do Nuno Graciano a dizer «É uma besta.» enquanto ele a Maya iam masturbando a sua falsa moral e hipocrisia em conjunto, dizendo que com coisas sérias não se brincam.

Esquecem-se é que o que é sérios para uns, para outros é leve e que os limites do humor e da liberdade de expressão são pessoais e intransmissíveis. Eles estão no direito de ofender quem quiserem e opinarem, atenção! Defendo isso como unhas e dentes. Tal como defendo que eu posso estar aqui a opinar sobre a opinião deles e chamares-lhes montinhos de cocó televisivos. Contra o Nuno Graciano, fora essa opinião, nem tenho nada contra. Acho que é só um palerma e ser palerma nem sempre é mau. Teve aquela situação do sushi e para mim quem organiza um festival de sushi em vez de bifanas devia levar com uma posta mirandesa na moleirinha que, no caso dele, nem tem amortecimento piloso nem nada. Era isso um osso buco entre as costelas flutuantes. A Maya é outra história porque acho, sinceramente, que quem cobra dinheiro a pessoas com falsos pretextos e promessas deveria ser multado e preso. Não vejo o por quê de dar consultas de tarô telefónicas seja diferente de ir burlar velhos porta-à-porta a trocar escudos por euros falsos. Acho até pior o que ela faz porque para se ser burlão porta-à-porta é preciso coragem, engenho e carisma. Ela só precisa de aparecer na televisão com um número de chamadas de valor acrescentado em rodapé. Só não seria burla se ela acreditasse mesmo no que diz. Aí era só uma pessoa que acredita em coisas que não fazem sentido e que pensa que está a ajudar as pessoas. Mas não é o caso, eu sei que ela não acredita nem um pouco naquelas balelas e que o faz só pro dinheiro. Como é que eu sei? Uma fonte próxima do casal disse-me. É fodido, não é?

É gente que faz da vida dar uma cor rosa a tertúlias e acinzentar entretenimento para entorpecer as massas desinformadas, tirando partido do sistema de educação podre deste país que gera adultos incultos e sem capacidade de questionar. É gente que vive da Indústria do Nada, como diz a música do Valete. Nada! Nada! Não produzem, não criam, não fazem nada. Nada!

Surfam na onda da futilidade e da inutilidade, comentando e empratando merda. Metem-lhe uma folha de rúcula e um vinagre balsâmico e dizem que é informação e entretenimento. Não é. É merda.

Acho que termino por aqui porque já me estou a enervar. Vou ver a repetição em câmara lenta do enterro da criança que há ali uma parte em que me pareceu fora-de-jogo.






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