1 de fevereiro de 2016

Há pessoas que não têm noção



Já devo ter feito mais quilómetros de comboio do que um militar da Pampilhosa destacado em Lisboa que vai a casa todos os fins-de-semana. Com dois interrails feitos, um dos quais com mais de 10.000 km de comboio, acho que sou quase doutorado na arte de viajar sobre carris. No entanto, ontem, vim do Porto para Lisboa e foi uma viagem prolífica em várias experiências novas. Desde logo, estava no ar aquele cheiro característico a pavilhão de ginástica de uma escola da Musgueira depois de uma aula de duas horas de educação física. Aquele aroma a marinar de suor reduzido a melaço nas virilhas. Há pessoas que não fazem da higiene pessoal uma prioridade nas suas vidas. Era Domingo e um comboio de longo curso, nem venham com a conversa de que foi a seguir a um dia de trabalho e as pessoas não têm culpa. As pessoas têm culpa, sim senhor. Há pessoas porcas.

Entro no comboio, 2ª classe, claro, que se chama "turística" só por causa do politicamente correcto, avisto o meu lugar e coloco as malas em cima. Daqueles lugares que são quatro, frente a frente, sento-me do lado do corredor, virado no sentido da marcha. Nos outros lugares ainda não está ninguém, mas a meu lado está uma bolsa daquelas de cintura, sinal de que não teria boa companhia. Passados vinte minutos, aparece o meu colega de viagem. Noto, desde logo, um cheiro a tabaco de quem esteve a fumar no WC. Desvio as pernas para ele passar e ele senta-se logo a ocupar os dois apoios para os braços. Ali, sentadinho como se estivesse na poltrona de uma casa de alterne. Era tudo dele. Não sei se sabem, mas mandam as regras da boa etiqueta que o apoio do meio fique para a pessoa que não vai à janela. Ainda assim, se fosse um apoiar de braço normal, tudo bem, mas não! Aquilo era meio braço dele já a invadir o meu espaço que nem que eu me encolhesse conseguia evitar o contacto físico. 

Chamem-me esquisito, mas não gosto de ir a roçar braço e ombro com alguém que nem sequer me pagou um jantar ou disse boa tarde.

Depois, este bicho era daquelas pessoas que suspiram compulsivamente de dois em dois minutos, sabem? Aqueles suspiros que vêm do interior da alma e que trazem consigo um bafo de cão que come as próprias fezes? Era isso. Portanto, para além do cheiro a tabaco entranhado na roupa e da falta de respeito pelo meu espaço privado, ainda se juntava o mau hálito e cheiro a cabelo lavado com água do bidé de um lar da terceira idade. Isto, para não falar da bolsinha à cintura ridícula, onde ele, provavelmente, teria guardadas duas perninhas de frango do Pingo Doce e meio pastel de nata. Com tudo isto, começou a crescer em mim uma vontade de cometer homicídio. Dei por mim a fantasiar espetar-lhe a caneta que tinha na mão mesmo na carótida. Respirei fundo, como ele, e entretive-me no telemóvel com alguma dificuldade porque o meu braço direito estava com mobilidade limitada. A certa altura, ele levanta-se para atender uma chamada e eu ocupo o encosto do braço, qual ninja. Passado uns minutos, o gajo chega, senta-se e tenta ocupar o apoio. O que faria uma pessoa normal? Punha o braço para dentro e pronto, tal como eu havia feito. Este animal não. Este animal decide que o apoio dá para os dois e começa a encostar o braço dele no meu e a empurrar muito subtilmente. Finco o cotovelo e mantenho o meu território demarcado. Ele suspira e eu quase que vacilo com o cheiro a língua de porco que lambe o próprio cu. Ficamos ali num impasse. Numa espécie de xadrez de antebraço. Claramente, eu tinha o controlo do encosto, mas ele tinha o braço encostado ao meu no seu apoio imaginário. Ele ia fazendo força de vez em quando e aproveitava quando o comboio abanava mais para se fazer cair na minha direcção a ver se eu cedia. Mas que tipo de terrorismo é este? Quem é esta gente? Não acreditando no que se estava a passar, para o testar tiro o braço apenas durante dois segundos e ele, logo, mas logo, ocupa o apoio todo. Que filho da puta. Mais uma vez não se limitava a ocupar o apoio e tinha para cima de dez centímetros de cotovelo do meu lado. Até encheu o peito, todo pavão. Como entrar numa discussão ou possível agressão sobre um apoio para braços me pareceu parvo, decidi ir até à carruagem do bar. Chegando lá, vi que havia um sofá com mesinha livre. Impecável. Voltei atrás, de passo apressado, para ir buscar o portátil. Cheguei ao lugar e lá estava a besta toda esparramada no lugar, de perna esticada com os pés em cima da cadeira da frente que ainda ia vazia, e com um braço no meu banco. Olha-me e encolhe-se um bocado, mas não o suficiente que manda a boa educação. Digo, em tom irónico, «Deixe-se estar, vim só buscar isto. Já pode ocupar tudo à vontade.»

Sentei-me no sofá do bar, convicto que me tinha livrado do maluco, sem desconfiar que o pior estava para vir. Começo a escrever o que viria a ser este texto e, na mesa do lado, vai uma mãe com dois miúdos que não se calam um segundo. Vão a jogar um qualquer jogo de futebol nos telemóveis, enquanto fazem um relato em tempo real. Dura há uma hora, já. A mãe está no Tinder e aposto que na descrição não revela ser mãe de dois rebentos ranhosos e irritantes, porque essa informação a juntar à cara dela e às unhas de gel foleiras, pode atrair os homens errados, como o pai das crianças que, provavelmente, já se pôs a milhas desde o ultrassom. Estou a ser mau, bem sei, mas culpem o gajo do encosto. A senhora lá leva os filhos embora e eu tenho alguma paz. De notar que foram para a carruagem de 1ª classe, mostrando que o dinheiro não traz bom gosto. Qual não é o meu espanto, quando reparo numa senhora que estava à minha frente numa daquelas cadeiras de balcão.

Uma senhora com um fetiche gastronómico peculiar: burriers au vin.

Passo a explicar a receita: abrem um pacotinho daqueles de vinho, dos pequenos, branco, e vão a beber durante a viagem, como se fosse um Bongo, o bom sabor da selva. Envoltos nesse espírito animal e selvagem, começam a tirar mucosas do nariz e comem-nas. Sim, esta senhora, adulta e sem aparentes distúrbios mentais, está há dez minutos a comer macacos do nariz! Sapas, minha gente. Sapas! Ela tem um método que se vê ter sido aperfeiçoado ao longo dos anos: consiste em retirar uma caracoleta do seu imundo nariz, observá-la durante dez segundos na ponta do seu dedo, como qualquer chef com estrelas michelin faria para assegurar a qualidade. Depois, leva o seu orangotango nasal à boca, mastiga e saboreia-o um pouco e, por fim, dá um trago no seu pacote de vinho. Da próxima vez que o Anthony Bourdain vier a Portugal, em vez de ir com o Sá Pessoa e o Avilez comer pregos e marisco, tem de vir provar a especialidade gourmet desta senhora. Há pessoas que não têm noção! Não fui o único a reparar e ao lado viam-se bastantes pessoas a comentar e a fazer aquela expressão de quem acabou de bolsar na própria boca. Isto durou e durou. Aquele nariz estava mais cheio do que uma carrinha de ciganos. E não, não estou a comparar ciganos a mucosas do nariz, porque toda a gente sabe que os ciganos não gostam de sapas.

Mais tarde, voltei ao meu lugar e lá estava o polvo com os seus tentáculos espalhados por todos os assentos. Olhou para mim de soslaio, como quem não tinha esquecido o meu comentário anterior, e fez questão de não se encolher. Sento-me mesmo à bruta, a deixar cair estes 85kg (87, pronto) com força na cadeira. Ele vê-se obrigado a encolher o braço e a resmungar qualquer coisa que eu não percebi. Ao parar em Santarém, uma senhora entra, chega à nossa fila e o seu olhar vai alternando entre a o bilhete e o número do lugar. Olha e olha, outra vez, até que se dirige ao meu colega espaçoso.

- Desculpe, acho que o meu lugar é esse.
- Pois, o meu é aquele ali. Eu vim para este. - responde ele, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
- Pronto, então se pudesse sair. - diz a senhora, sempre sorridente e simpática.
- É que aquele uma pessoa vai de costas e eu fico mal disposto.
- Pois, eu também. O meu lugar é esse. - diz ela, firme.
- Pronto, pronto. A donzela quer eu mudo! - diz ele todo condescendente.

Quer dizer, andava aquele anormal a ocupar o apoio para o braço, todo esticado em cima de mim, mal educado e mal cheiroso, e afinal aquele lugar nem era o dele? Foda-se. Que atrasado mental. Há pessoas que não têm noção.

Uma palavra a todas as pessoas, que são muitas, que se sentam num lugar que não é o seu: parem com essa merda!

Se há lugares marcados vão para o vosso! Não é na janela? Vão de costas? É longe do bar? Temos pena! Para vosso comodismo, as outras pessoas é que têm de vos abordar a pedir para lhes darem o lugar que era deles e esperar que se levantem, tirem as malas, e ainda apanham o assento quente do vosso rabo, que é nojento. O rabo e a situação. Tenham juízo, cambada de palermas. É o mesmo síndrome do pessoal que estaciona em segunda fila e vai ao café. Para vosso comodismo de não quererem andar a perder tempo ou andar mais 10 minutos a pé para estacionar o carro, as outras pessoas é que têm de esperar 5 minutos e buzinar no meio da rua para virem destrancar-lhes o carro? Falta de respeito. 

Bem, a última etapa da viagem fez-se bem e, como em qualquer viagem de comboio, terminou com aquelas velhas e velhos a falar ao telemóvel em alto e bom som a dizer que estão a chegar. «Tou? Tou? TOU? Não te estou a ouvir bem! TOU! Estou a chegar! A CHEGAR! SIM. DEZ MINUTOS! DEZ MINUTOS! DEZ MINUTOS! NOVE MINUTOS!»Por falar em velhas e velhos. É incrível a falta de entre-ajuda e solidariedade que temos enquanto espécie. Fico chocado ao ver uma senhora de idade, já com dificuldades em andar, a tentar colocar ou tirar uma mala maior do que ela no compartimento de cima e pessoas a passar sem a ajudar. Fico a observar e a pensar como é que é possível que toda a gente se limite a ver sem a ajudar. Fico ali a olhar para toda a gente e a ver que ninguém a ajuda. Ninguém! Tudo a olhar e eu a vê-los.





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