24 de abril de 2017

Foi para isto que se fez o 25 de Abril?



Tenho um jogo com taxistas que é o seguinte: ver quanto tempo demoram a dizer «O que faz falta a Portugal é um Salazar.». Em primeiro lugar, destacado, está um taxista que não devia ter mais de 40 anos e que após eu perguntar se o trabalho corria bem, responde-me «Tem dias. Só bandidos. O que faz falta a Portugal é um Salazar.». Estavam decorridos cerca de oitenta segundos de viagem. Foi capote. Tive pena de não ter confetes. Quis abraçá-lo e dar-lhe uma taça de campeão, mas contive-me não fosse ele pensar que eu era um desses maricas que andam por aí só porque Portugal agora é um paraíso de bandidagem que assalta rabos alheios.

Sempre achei estranho que pessoas que não coexistiram com Salazar sintam saudades dele.

Seria o mesmo que eu dizer que Portugal precisa é de uma Tutankhamon, só porque li umas coisas que dizem que ele até fez umas coisas bem-feitas ignorando tudo o resto. No entanto, talvez faça mais sentido alguém gostar de Salazar sem ter vivido no seu tempo e que apenas conta com as memórias relatadas por quem fazia parte da pequeníssima minoria que vivia bem nesses tempos. Haverá sempre saudosistas dos tempos da ditadura porque há muita gente para quem a liberdade de pensamento e de expressão é secundária porque não são muito atreitos a pensar e, muito menos, a contestar as regras. Porque estávamos melhor? O que leva pessoas a pensar isso da mesma forma que uma namorada que foi agredida pelo namorado decide esquecer e voltar para ele uma e outra vez?

1- Não havia serviço nacional de saúde, que só foi implementado em 1979, e era um dos fatores de haver em Portugal uma taxa de mortalidade infantil maior do que 50‰. Já sei que estão a pensar que há pelo menos 50% de pessoas que vocês conhecem que nem sequer deviam ter nascido. Talvez faça mesmo falta um Salazar.

2- Havia guerra colonial em que milhares de jovens portugueses eram enviados para o campo de batalha, sem saberem bem porquê, a defender os resquícios de um império que havia sido o maior do mundo a tentar negar a liberdade a povos escravizados e invadidos. Já sei que estão a pensar que ao menos nessa altura os homens iam para a guerra e eram menos maricas, com a exceção daquelas tatuagens das sereias e corações a dizer “Amor de Mãe”. Talvez faça mesmo falta um Salazar.

3- Não havia voto livre e, quando havia, as eleições eram falsificadas e Salazar ganhava na mesma, chegando a mandar matar, com sucesso, um dos principais rostos da oposição: Humberto Delgado. Já sei que estão a pensar que o voto agora é livre e que o pessoal fica na praia ou o desperdiça a votar nos mesmos de sempre sem que nada mude. E também que não se perdia nada se alguém fizesse desaparecer o Passos Coelho. Talvez faça mesmo falta um Salazar.

4- No tempo de Salazar havia presos políticos que se opunham ao regime, mas nos dias de hoje há políticos presos. Já sei que estão a pensar que só prenderam uma minoria dos corruptos e que com Salazar se calhar tinham levado um balázio entre os olhos, não por serem corruptos, mas por serem opositores, ou nem tinham chegado a sê-lo porque não havia tantos partidos e, por conseguinte, muitos postos de trabalho para a corrupção. Verdade, se calhar Salazar faz mesmo falta a Portugal.

5- Nunca havia greve dos funcionários públicos porque ninguém ousava lutar por melhores condições de trabalho. Nos tempos que correm, há greves a toda a hora na função pública e especialmente nos transportes porque as pessoas têm a mania que podem reivindicar pelos seus direitos mesmo que isso incomode outras pessoas. Começo a pensar que um Salazar até tinha coisas boas.

6- Havia a Mocidade Portuguesa onde crianças eram obrigadas a fazer parte de uma instituição militarizada onde eram formatadas e lhes cortavam qualquer interrogação sobre a autoridade e o poder vigente. Hoje, vemos criançada com boné do SWAG e calças a mostrar o rego, que ainda nem tem pelos, e a ouvir Agir no telemóvel sem auscultadores. Volta, Salazar, estás perdoado.

7- Havia mais discriminação. Havia mais pobreza. Havia menos respeito, dizem, só que não. Havia era mais medo e temor à autoridade. Não responder a um professor ou a um polícia que abusa da autoridade não é respeito. É medo. É ser-se choninhas.

Há quem se esconda atrás da segurança, dizendo que era um país muito mais pacato e seguro. O Afeganistão também era mais seguro quando era governado pelos talibãs a não ser que alguém saísse da linha: nesse caso havia perninhas e bracinhos cortados e cabeças enviadas à família como condolências. Para mim, a liberdade vale mais do que a segurança.

A beleza da liberdade é que podem existir pessoas que defendem um ditador que reprimiu um povo e o manteve na pobreza.

Liberdade é essas pessoas poderem pensar dessa forma e exprimir os seus ideais racistas, homofóbicos e misóginos. A grande dádiva da liberdade é a permissão à estupidez e a convicção de que esta deve estar a céu aberto e nunca num aterro onde não se vê, mas cheira mal na mesma. Nenhuma revolução é perfeita e completamente altruísta. A revolução é feita por um grupo de pessoas e num grupo de pessoas há sempre as que querem o poder para si e lucrar com a situação. A revolução é como uma piada sobre uma tragédia: pode ofender alguém, mas liberta outras e a piada só existe porque a tragédia aconteceu, da mesma forma que uma revolução, boa ou menos boa, só ocorreu porque havia opressão e ditadura. Quem acha que o 25 de Abril foi um erro e que o Salazar é que devia mandar nisto, lembrem-se que só houve 25 de Abril porque tinha havido um Salazar a comandar e oprimir um povo durante 36 anos. Se Salazar fosse assim tão bom, como muitos advogam, o 25 de Abril nunca teria acontecido porque não seria preciso. Por isso, dizer que o Salazar era o maior e que o 25 de Abril foi um erro é um paradoxo. Para além de ser estupidez, claro, e é graças ao 25 de Abril que essas pessoas podem ser estúpidas à vontade e que nós nos podemos rir delas sem medo de levar um calduço da PIDE.





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