5 de abril de 2017

Futebol e a violência andam de mãos dadas



Parece que, ultimamente, o mundo do futebol tem andando de mãos dadas com a violência. Que surpresa! Pessoalmente, gosto de futebol, mas não sou fanático. Se o meu clube não ganha nada, o que é bastante habitual, não me afecta já que tenho uma vida preenchida e não preciso de descarregar as minhas frustrações sexuais numa coisa que devia ser apenas um jogo. Sempre que vejo gente no meu mural de Facebook a utilizar o futebol para ofender, dou bastante uso ao botão de remover amizade. É isso e ir à página do PNR de vez em quando ver quem tem lá like. É um serviço que devia ser prestado por empresas de recolha de lixo nas redes sociais. Fica a ideia para os empreendedores que estejam a ler isto.

Primeiro, foi o caso do agente da PSP que deu uns miminhos a um adepto. Fez-lhe um carrinho no ar, ao estilo do Van Damme, e depois enfiou-lhe uns pontapés de biqueira de aço nas costelas flutuantes enquanto o adepto estava quietinho no chão.

Deve ter sido falha de comunicação e o adepto pensava que era para fazer o Mannequim Challenge quando, afinal, era o Harlem Shake.

aqui escrevi sobre violência policial e é óbvio que nada justifica aquela atitude por parte de alguém cujo lema é proteger e servir e não arrear e servir porrada. Isto não invalida o facto de o adepto ter ou não merecido! Provavelmente mereceu mas isso não quer dizer que o polícia lhe possa fazer aquilo, da mesma forma que as nossas namoradas muitas vezes merecem uma pancada na nuca, mas nós sabemos que isso não se faz.

Depois, tivemos o jogador do Canelas que decidiu dar uma joelhada num árbitro, partindo-lhe o nariz. A violência utilizada pelos jogadores do Canelas já deu muito que falar e estamos todos fartos de ouvir piadas «Eles dão muitas caneladas. Ah Ah Ah!». Parece-me absurdo crucificar o rapaz quando tanta gente fez pior. A diferença é que uma joelhada é mais exuberante do que uma cabeçada, uns pontapés na cabeça do adversário quando este está no chão, ou um murro dissimulado no baixo ventre do árbitro. Obviamente que o Dolph Lundgren da distrital deve ser penalizado, tanto desportivamente como, até, criminalmente. Se eu fizer aquilo a alguém na rua sou capaz de ter problemas com a justiça uma vez que não sou segurança de discoteca para me dar ao luxo de agredir pessoas todos os dias sem qualquer tipo de consequência. A verdade é que enquanto houver dirigentes que instigam violência (e são todos), comentadores que fazem o mesmo, e adeptos que se agridem física e verbalmente, não podemos esperar que os jogadores não façam o mesmo. No meio disto tudo, é mais compreensível que um jogador amador que está em campo, com adrenalina e cabeça quente, dê uma joelhada num árbitro. Até porque aquele gajo é menino para usar esteróides e toda a gente sabe que isso faz com que o pavio fique mais curto, juntando o facto de alguém a correr com aquela massa muscular precisar de muito oxigénio para alimentar o caparro e de o cérebro ficar em apneia e o discernimento ser menor. Ele próprio diz que não se lembra de ter agredido o árbitro. Chama-se memória muscular: quando estamos habituados a fazer um movimento muitas vezes ele sai-nos naturalmente sem pensarmos nele e, obviamente, as memórias ficam desfocadas.

Toda a gente sabe que os treinos do Canelas começam com voltas ao campo e acabam com joelhadas nos bonequinhos da barreira.

Deixemo-nos de dramas para vender jornais. Querem ver violência no futebol então deviam ter jogado no Recreativo da Buraca como eu joguei em futsal. Havia jogos em que em vez do apito do árbitro havia tiros na bancada a dar o sinal de fim de jogo. Porrada e cabeças abertas era em todos os jogos em casa que chegar ao final do campeonato sem ser expulso pelo menos dez vezes era ser-se maricas. Quando vemos, nas ligas infantis, os pais na bancada a chamar nomes aos árbitros, não podemos esperar que as crianças cresçam sem achar que malhar num árbitro é normal. Quantas vezes não vemos imagens nos estádios com miúdos com menos de dez anos a fazer piretes e chamar nomes às mães dos jogadores adversários? Vezes demais. Os pais aplaudem porque todos gostam de se rever nos filhos «Eu com a idade dele também era assim!», dizem, não percebendo que uma mini merda cresce para ficar merda.

A culpa não é do futebol: é das pessoas e do tecido carcomido da sociedade. O futebol é apenas um contexto onde a falta de civismo se manifesta, quer porque as emoções estão ao rubro, quer pela psicologia de massas e o sentimento de impunidade quando se ataca em manada. Ir em direcção ao estádio, num cordão policial, a fazer manguitos a outros adeptos é a prova de que a evolução humana seguiu diferentes ramificações e que os fósseis dos missing links são difíceis de encontrar porque eles ainda andam por aqui. Tudo isto é normal no futebol e em eventos que apaixonam milhares. Também há porrada de miúdas de doze anos à porta dos concertos do Justin Bieber e ninguém fala disso! E campeonato nacional de jogo da malha? Aí sim, vemos velhos a cuspir vernáculo como gente grande e arremessos da malha contra a cabeça de idosos de ossos já rendilhados. Imaginem o que era haver este tipo de contingente policial, porrada, insultos e outras cenas tristes, em eventos desportivos de outra natureza. Imaginem um torneio de pingue pong com petardos nas bancadas ou um campeonato de patinagem artística com invasão de campo e pessoal a deslizar à pancada. É curioso que nos desportos de combate há menos violência entre os adeptos. Era de esperar que milhares de pessoas a ver o Floyd Mayweather ou um Conor McGregor as coisas dessem para o torto, mas não. Tenho uma teoria: porque é maricas andar à porrada por causa do Conor McGregor que é apenas um gajo e não um clube.

Andar à batatada por causa de um homem só se ele se chamar Jesus ou Maomé.

O que é certo é que o futebol desperta paixões e nos torna menos racionais e isso é um fenómeno interessante que torna o futebol no maior espectáculo do mundo. As pessoas precisam de se sentir vivas e acordar da dormência que é a maioria das suas vidas e o futebol, muitas vezes, é esse escape. Eu próprio sou menino para mandar umas boas caralhadas a ver futebol com amigos, a diferença é que a minha indignação fica ali depois do apito final e a nossa vida continua e ninguém está com vontade de ir partir montras e roubar estações de serviço. Até porque trabalhamos, estamos cansados e temos de acordar cedo no dia seguinte. Somos uns meninos, bem sei. Agora, cânticos a chamar nomes à mãe dos adeptos contrários, gritos em uníssono a fazer o mesmo sempre que há um pontapé de baliza do guarda-redes visitante? É palermice que as pessoas fazem sem reflectir. Deve ser porque dá mais trabalho ir para a Assembleia da República gritar «Fiiiiiiiiii-lhoooooooo daaaaaaaa Puuuuuuuu-taaaaaaa» de cada vez que o Passos Coelho se levanta para falar. Uma mentira dita por um político tem dois minutos de antena e as pessoas esquecem; uma baboseira dita por um dirigente de futebol é espremida até ao tutano e revolta milhões. Quando se revoltam com políticos é quando eles fazem piadas com futebol como foi com a Marisa Matias... ah, povinho que sabe o que realmente importa, este.

Por muito que falem disso, não interessa a ninguém que o futebol deixe de ter polémica e violência porque é isso que vende. O que seria do negócio do futebol se não houvesse capas polémicas de jornais e programas com comentadores a ofenderem-se enquanto discutem durante uma hora se o lance é ou não é penalti. Para mim, é muito mais chocante ver imagens do Pedro Guerra do que de um árbitro a levar uma joelhada na testa. Então se virmos com som, mais vale um vídeo de uma decapitação do Daesh do que um gordo sabujo com fatos que usam no circo para vestir hipopótamos a debitar barbaridades que nem os adeptos do próprio clube gostam. No entanto, dá audiências, não é? Pois. Coiso. Se não houvesse polémica com o que é que os dirigentes, treinadores e jogadores se desculpavam quando não ganham? Tinham de admitir que foram inferiores e isso não interessa a ninguém. Um sistema viciado dá jeito a quem beneficia dele e a quem é prejudicado, da mesma forma que se os políticos e governantes fossem imaculados e as oportunidades iguais para todos, de quem é que nos iríamos queixar no café quando as coisas não nos correm bem?





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