3 de abril de 2017

Mais 10 erros que fazem comichão - Parte 2



Ontem, vi alguém a escrever "Vendo boneca de porsselana" e lembrei-me que depois do sucesso deste texto, que foi utilizado por professores nas aulas e partilhado por escritores como a Alice Vieira, havia necessidade de uma segunda parte a identificar e explicar mais erros ortográficos que fazem comichão naquele sítio das costas onde não conseguimos coçar. Volto a reafirmar o que disse à algum tempo atrás: sei que é um exercício arrogante, pois mais cedo ou mais tarde todos comete-mos erros, mas à uns mais graves do que outros. Depois faço um texto sobre hironia.

«Eles estam a ignorar-me. Será que não gostão de mim?»
Claro que não gostam. Ninguém gosta de pessoas que não sabem as regras básicas do português. Primeiro, "estam" é uma palavra que não existe no dicionário de português e a desculpa de escrever no telemóvel não serve. Segundo, "gostão" só faz sentido se estivermos a falar de um grande gosto como, por exemplo, «Bem, mamei-lhe da boca e tinha cá um gostão!». Percebo que para quem faltava às aulas na primária seja complicado perceber porque é que dois verbos que acabam em "ar" se conjugam de forma diferente na terceira pessoa do plural. Parece que uns são verbos regulares e os outros irregulares. Enfim, quem inventou estas regras esqueceu-se que existem pessoas burras e que seria melhor simplificar e usar sempre o infinitivo dos verbos: «Eles estar a ignorar-me. Será que não gostar de mim?».

«Hádes cá vir.»
O verbo haver é o que mais partidas prega ao comum dos mortais. Não bastava o recorrente erro «À muito tempo» ainda temos de sofrer agressões aos olhos e ouvidos sempre que alguém diz, e são muitos, hádes ou há-des. Normalmente, quando são chamados à atenção, utilizam a desculpa de que não escrevem com o Novo Acordo Ortográfico porque valorizam o português de Portugal.

- Hádes ler mitologia grega.
- Hádes?
- Sim, mas Zeus também é fixe.

A forma correcta é hás-de ou, com o novo acordo, hás de, sem hífen. Outro problema com o haver é o seu plural.

- Houveram muitas gajas atrás de mim.
- Toda analfabetas, suponho.
- Não, só duas é que eram de Cascais, as outras eram mitras.

Quando se refere a existir, o verbo "haver" é sempre impessoal e "houveram", embora exista noutros contextos, nunca se aplica neste! Aqui, seria "houve" ou "havia". São as regras, não fiquem arreliados com o mensageiro. Já agora, pessoas que escrevem «Isso não tem nada haver». Mas porquê, ó gente burra? 

«Karla, amarei-te para sempre. Ass. Sandro.»
Uma frase que se pode ler grafitada em muitas paredes da Linha de Sintra ou tatuada nos braços de pais adolescentes. A Karla, se tiver melhor gosto do que os seus pais para dar nomes a bebés, ao ler esta frase vai mandar o Sandro às urtigas. Embora se diga, em português do Brasil, «te amarei», escreve-se «amar-te-ei». «Amarei-te» é um gajo com problemas de fala a dizer a alguém que a amarrou.

- Amarei-te para sempre, Karla!
- Amarraste-me? Uh, safado. Conta mais.
- Se pudesse, faria-te a mulher mais feliz do mundo!
- Far-te-ia...
- Eu também ia far far away contigo.
- Temos de conversar...

«Tenho um amigo meu que está sempre a subir para cima na empresa.»
Esta frase não tem nenhum erro: tem dois pleonasmos desnecessários. Até que ponto devemos corrigir pleonasmos se, na verdade, não estão gramaticalmente ou ortograficamente errados? Só para nos sentirmos mais inteligentes? Talvez. No entanto, estes pleonasmos podem ser necessários para as pessoas burras perceberem o que queremos dizer. Exemplos:

- Sabes quando chegas àquela rua que sobe?
- Nesse sítio só conheço a rua que desce.
- Sim, mas isso é se vieres de cima.
- Como assim?
- Se vieres de baixo, a rua sobe!
- A mesma rua? Sobe para onde?
- Para cima...
- Ah, já percebi.

- Tenho o cadáver de um amigo lá em casa.
- Um amigo teu?
- Não, é um amigo da minha namorada.

«Queres vir ao cinema com migo?»
Não, obrigado. A resposta deve ser sempre esta quando alguém nos convida para sair, com esta ortografia: assim, reduzem-se as hipóteses de pessoas que escrevem desta forma se conseguirem reproduzir. Felizmente, é um erro que tem vindo a desaparecer, mas que se mantém no vocabulário erudito e eloquente dos jogadores e dirigentes de futebol. Desde o ex-capitão do FCP, João Pinto, até ao actual presidente do SLB, a expressão «com migo ou sem migo» é ainda recorrente. Pior, já vi com estes olhos que a terra há de comer, pessoas a escrever «Não queres vir com nosco». Nojo, estas pessoas metem-me nojo. Com migo e sem migo, só faz sentido se separados por uma vírgula e ditos por uma pita:

- Sim, faço com a boca. E mão? Queres com ou sem, migo?

«Vou dar-te um concelho...»
Regra básica: quem escreve isto vai dar um conselho de merda a seguir. Duas em cada três pessoas escreve "concelho" quando se está a referir a uma "sugestão" ou, como escrevem, "sujestão". São pessoas que mereciam uma chapada à padrasto, com anéis salientes, na nuca.

- Vou tomar um batido de proteína com leite.
- Vou dar-te um concelho.
- Se der para escolher pode ser o de Seia.
- Era para tomares com água, mas seia convém ser proteína de absorção lenta, tipo caseína, para aguentar a noite toda.
- Só sacas gajas por causa dos músculos...

Concelho é um conjunto de freguesias. Tudo o resto, mesmo Conselho Directivo vem do acto de aconselhar. Estamos esclarecidos?

«Á noite todos os gatos são parvos.»
Quem nunca, nos tempos da escola, não tinha a certeza se se escrevia "à" ou "á" e colocava o acento na vertical a ver se a professora deixava passar? Todos. São erros menores e há coisas piores:

- Vou dizer á minha mãe!
- Á? LOL. Não sabes usar assentos?
- Claro que sei, uma pessoa senta-se e pronto. Não tem muito que saber.
- Não é desses assentos que estou a falar. Burro!
- Sim, sim. O burro sou eu.

"À" é sempre com acento grave, bem como àquele, àquela, etc. Quase tudo o resto é acento agudo. Ah, e palavras tipo «próximamente» nunca levam acento. As palavras só podem ter acentos até à antepenúltima sílaba. É capaz de haver excepções, não sei, não sou vosso professor. Já agora, ficam a saber que também não há palavras com dois acentos gráficos. «Então e órgão?» perguntam alguns. O til não é um acento, é um sinal indicativo de nasalação. WOW! Todo um mundo destruído!

«Concerteza que toco com certina! Estou a falar assério!»
Morre diabo! Quem escreve "concerteza" deve pensar que é Rei do Séc. XV que nunca teve aulas de português, mas escreve como quer já que ninguém o vai chamar à atenção com medo de ser decapitado. Valorizo o facto de saberem que antes de uma consoante que não o "p" e o "b" se usa sempre um "n" e não um "m". Parecendo que não, é melhor escrever concerteza do que comcerteza, embora estes últimos se possam desculpar que foi a tecla do espaço que não funcionou. Por fim, sempre que vejo alguém a escrever "assério", como bom hipocondríaco que sou, marco logo uma consulta a pensar que já apanhei cancro nos olhos.

«Desde onteontem que tenho ouvisto dizer iço»
Oralmente, há ainda muita gente a dizer "onteontem" ou "onteonte" ou "ontesdontem". Na escrita, esses erros também se vêem mais do que o que deveria ser permitido por lei. São pessoas que têm alma de papagaio e ouvem sons sem questionar o seu significado. As formas correctas são, obviamente, "antes de ontem" ou "anteontem", tal como se diz apenas "antes do penúltimo" ou "antepenúltimo". Ou achavam que se dizia "ontepenúltimo"? Mas pronto, também não vamos estar aqui a exigir que todas as pessoas tenham capacidade de pensar, caso contrário a vida era muito menos divertida para todos. Quem achar que a frase inicial apenas tem esse erro, é porque precisa de ir para as Novas Oportunidades.

«Piadas com minorias? Isso é descriminação!»
É uma frase que se ouve amiúde nas caixas de comentários. Não bastasse o facto de serem pessoas que não têm sentido de humor e que fazem do activismo de sofá e do Facebook uma forma de vida, pois ser activista na vida real dá muito trabalho, nem sabem soletrar aquilo contra o que lutam: discriminação. Descriminar também existe, mas quer dizer outra coisa.

- Estava no metro e estava um branco, um preto e um gay.
- Estás a descriminar?
- Não... estou a discriminar.
- Ainda admites que és racista e homofóbico?
- Não, discriminar é sinónimo de distinguir e diferenciar, é um verbo que nem sempre pressupõe malícia.
- Não me enganas! Estás a descriminar os pretos e os gays!
- Isso era parvo, ser gay e preto não é crime.
- O quê? E haveria de ser, por quê?
- Não disse isso...
- Ser crime devia ser ser homem branco e hetero!
- Mas tu também és...
- Mas eu vou muitas vezes à Amadora e aos Armazéns do Chiado!!!

Já estão a ver onde iria parar a conversa. "Descriminar" é sinónimo de "descriminalizar". Tratar de modo desigual e injusto é discriminar. Já agora, parem de dizer «Menu de grupo com bebidas à descrição».

Já sei que é injusto julgar as pessoas pelos erros ortográficos já que nem todos tivemos o privilégio de ter acesso à educação. Por isso é que não julgo, da mesma forma, a senhora Alcina de 70 anos que mora numa aldeia e o Martim que fez o 12º num colégio privado. Sinto que este texto poderá ter uma terceira parte, tal é a quantidade de atentados à língua portuguesa que se vê por aí, especialmente numa época em que há mais analfabetos do que infoexcluídos. Já sei que vai haver gente ofendida a dizer «Eu escrevo como eu quiser!» que era o que dizia o Jefferson, meu colega da primária. Apesar de nunca ter passado da 2ª classe ainda hoje escreve como quer, é um facto. É um gajo de prinssípios. Partilhem para ajudar a acabar com esta praga.





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