10 de setembro de 2014

Usar fato e gravata é parvo



Porque é que há profissões e empresas que exigem o uso de fato, para dar um ar mais profissional e íntegro aos clientes, quando todos os grandes ladrões e aldrabões que conhecemos andam sempre de fato e gravata? 


#RicardoSalgado #OliveiraCosta #ArmandoVara 
#ValeAzevedo #IsaltinoMorais #etc

Reza a lenda que na Vodafone ali no Parque das Nações não havia dress code oficial, mas também não era normal as pessoas irem "demasiado" informais. Certo dia, o CFO entra no elevador e dá de caras com uma rapariga que trabalhava lá, de top reduzido, barriga à mostra e com letras berrantes sobre os seios a dizer "FUCK ME". A partir desse dia começou a haver dress code oficial. Eu acho que foi porque o CFO tentou comer a rapariga e ela não deixou. Já se sabe que a Vodafone não gosta de publicidade enganosa, quando eles dizem que são 100 mb/s de Internet é porque são mesmo... Nem oito nem oitenta, também não quero ter que levar com pessoal de t-shirt em V até ao umbigo e boné virado ao contrário com uma t-shirt de alças a dizer "Não programo com JAVA, programo com SWAG". Já as mulheres, se quiserem ir de calção que só tapa meia nalga não me oponho. Quer dizer, depende da nalga em questão. Sou um hipócrita bem sei.

Eu trabalhei num banco durante 1 ano, na parte informática, sem qualquer contacto com o cliente. Ainda assim, da primeira vez que lá entrei estava tudo de fato e gravata, 40 macacos numa sala, onde ninguém explicitou que era preciso usar fato e gravata, mas eu como ovelha bem comportada, comecei a ir também. Tinha começado há pouco tempo a trabalhar e ainda não tinha aprendido que as coisas são para serem questionadas, que a teoria dos macacos do "Não sei... as coisas sempre funcionaram assim" pode, e deve, ser desafiada. Às sextas-feiras havia a política comum da Casual Friday, em que a loucura era ir de fato sem gravata. Certo dia, esqueci-me das calças de fato quando fui dormir fora de casa, só reparei de manhã e para não perder tempo a ir a casa buscá-las, decidi ir com as calças de ganga do dia anterior, camisa e blazer, sem gravata. Entrei, fiz o meu trabalho e ninguém me disse nada. Eu pensei "Oh lá... tu queres ver que descobri um erro no sistema?". Assim foi, de vez em quando comecei a não levar gravata, depois passei a levar calças de pano, mais tarde de ganga à sexta feira e depois aos outros dias. A maioria das vezes ainda ia de fato e gravata mas cada vez menos. Cheguei a ir de calção e t-shirt uma vez que fui lá chamado e estava de férias, só para meter nojo. Nunca ninguém me disse nada, aliás, nunca nenhum chefe me disse nada, alguns colegas sim. O que começou a acontecer a seguir, coincidência ou não, foi interessante. Até aí nunca tinha visto ninguém a não levar a gravata num dia normal, quanto mais calças de pano ou ganga, mas gradualmente isso começou a acontecer. Não todos, mas bastantes. Fui o Marquês de Pombal lá do sítio, mas em vez de libertar os escravos libertei alguns pescoços. Outra coincidência é o facto desse banco estar situado no Marquês de Pombal em Lisboa.

Já que estamos numa de bancos, será que confiaríamos menos num por o empregado que nos atende estar de calções e chinelos? Provavelmente a maioria das pessoas sim, as mesmas que mantêm o dinheiro no Novo Banco depois de terem sido quase sodomizados à bruta e sem vaselina por vários senhores de fato e gravata. Mas aí reside o problema, nós continuamos a dar importância à aparência e a roupa faz parte dela. Uma tia minha contava a história de estar no autocarro e ter saído uma paragem antes, porque estava lá um sem abrigo com mau aspecto a olhar para ela. Fez o  resto do caminho a pé onde foi assaltada por um senhor de fato. Provavelmente é apenas uma fábula para nos ensinar que a roupa não faz a pessoa. Um burgesso de fato continua a ser um burgesso.


Há pessoas que se lhes pusessem uma bata branca em vez de parecerem médicos iam parecer talhantes

Os políticos usam todos fato e gravata e ninguém confia neles. Ninguém acha que eles são profissionais ou pessoas idóneas. Se o Costa ontem tivesse ido para o debate de calção e t-shirt o que teria acontecido? Teria ganho ou perdido votos com isso? Podia aproveitar para ir com uma t-shirt com "Vota Costa" impresso na parte da frente, só para baralhar as pessoas.

Respeito que haja quem goste de usar fato, para trabalhar tem a vantagem de não se ter que pensar muito na roupa a utilizar, esconde a barriga e parece que as mulheres até gostam. Mas usar todos os dias por obrigação? Acho que já não conseguia voltar a fazer (só por um ordenado bem chorudo, todos temos o nosso preço). Nós já parecemos lemmings a entrar para o comboio e metro, com as caras de sobrolho carregado enfiadas nos smartphones, a olhar de lado para qualquer encontrão acidental que nos dão, sem um bom dia nem boa tarde. De fato, todos iguais em tons escuros e camisas claras, para quem nos esteja a ver de cima (zero conotação religiosa) não devemos parecer diferentes do que as formigas nos parecem a nós. Todas iguais, sem qualquer individualidade e vontade própria.

Felizmente com as novas empresas geridas por jovens CEOs bilionários de t-shirt, o paradigma parece estar a mudar um pouco. Mas em vez de esperarmos que o exemplo venha de cima, podemos ser nós a tentar mudar a sociedade. Para isso basta irem ter com o vosso chefe e perguntarem se podem começar a não ir de fato. Se ele disser que não, dêem-lhe uma chapada à padrasto e digam que vão da minha parte. Ou melhor, aparecem sem gravata até o chefe vos chamar à atenção e perguntar "Onde está a sua gravata?", nisto vocês respondem "Está no pescoço... de baixo. Foi a sua mulher que fez o nó". Recostem-se e desfrutem o momento.





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