28 de abril de 2016

Não sou racista, mas...



Então parece que 2016 são os novos anos 80, com o belo do racismo a ser moda outra vez. Bem, dizem que as modas são cíclicas e antes o racismo do que voltarem a usar-se permanentes e fatos de treino fluorescentes. O preto dá bem com tudo, já o cor-de-rosa choque com verde marinho só dá bem com o centro comercial ao Domingo à tarde.

As últimas semanas têm sido profícuas para quem gosta de expressar o seu ódio por pretos. Ou africanos, como alguns dizem pensando que nascer na Amadora é nascer em Luanda. Sim, estou a falar da história dos kebabs e também do programa "E se fosse consigo?". Abriram os portões das cavernas e vieram vagas de grunhos a invadir as caixas de comentários dos sites de notícias, o recreio dos tristes, com a conclusão de quem não tem mais inteligência do que a necessária para ter reflexos Pavlovianos: a culpa é de serem pretos! Sabemos que ainda há racismo quando vândalos brancos são só vândalos sem educação, e vândalos pretos são «pretos de merda que deviam ir para a terra deles» sendo que a terra deles, provavelmente, é a Linha de Sintra ou a Margem Sul.

Isto não é uma questão de raça, de cor, ou de se ouvir muita kizomba, embora acredite que possa fazer mal ao cérebro.

Todos temos preconceitos e não há mal nenhum nisso, já a forma como deixamos que esses preconceitos afectem a forma como agimos e pensamos é que nos define. Aliás, para mim o preconceito está directamente ligado à falta de inteligência. Tenho a convicção de que foi um mecanismo de sobrevivência que o nosso cérebro desenvolveu quando ainda éramos australopitecos incapazes de um raciocínio mais complexo: comíamos um, dois, três frutos pretos estragados e passávamos a achar que a cor preta era má e que até as amoras sabiam mal. Esta "lógica" serviu-nos na altura para evitarmos potenciais perigos e jogar pelo seguro, mas hoje já fomos à Lua e mandamos robôs a Marte e se calhar já podíamos deixar de ser estúpidos. Com o racismo o mecanismo é o mesmo: há quem tome a parte pelo todo e ache que encontrou o padrão do vandalismo na cor da pele, mostrando que apenas tem a inteligência de um chimpanzé filho de primos direitos.

É um facto que o vídeo é chocante para quem não vive na Buraca, já que para mim aquilo é uma sexta-feira, com a diferença de que só houve um ou dois tiros. Sim, a culpa parece ser do grupo de pretos, mas deixem-me fazer agora de advogado do diabo: como é que tudo começou? Tenho aquele defeito de não me armar em juiz sem saber os factos, embora saiba que se está na Internet é porque é verdade e nem precisamos de investigação nem tribunais. Imaginem que o Curdo disse, na sua simpatia domingueira, «Isto está fechado!» e eles dizem «Mas era só para comer um kebab!» e o gajo responde «Vê lá é se queres bochecha de porco, ó preto.» e gera-se a confusão. Decerto estarão lembrados do caso do Nélson Évora na discoteca Urban, caso com o qual desde logo me identifiquei por também já ter sido alvo de racismo ao entrar em muitas discotecas quando me barram a entrada porque tenho um pénis. Já sei que devem estar a pensar que isso é discriminação sexual e não racismo, mas enganam-se! Foi racismo porque fui discriminado pela parte do meu corpo mais africana. Não me estou a gabar: é africana porque é magrinha, tem fome e moscas. Mas bem, tudo pode ter começado por algum comentário ou atitude racista do Curdo e daí ter-se despoletado a acção violenta por parte do grupo, ainda que sem razão, obviamente. Aliás, um deles andava armado e não me parece que quem anda com uma 6.35 comprada no bairro e a leva para sair à noite seja boa rés. É um anormal que devia estar preso.

«EM LISBOA SÓ SE VÊSSE ESTAS SITUASSÕES COM PRETOS!!!» li nessa selva que são as caixas de comentários do Facebook. A base é a educação e a igualdade no acesso a ela. Se vives num gueto, não tens acesso à educação e tens de trabalhar 12 horas por dia para ganhar o ordenado mínimo, ou menos, e não tens acesso à educação e, por isso, tens 8 filhos e não tens tempo nem recursos para os criar e educar, sim, alguns deles vão dar em gandins. Por muito que nos custe admitir, mais do que as pessoas, temos um sistema que discrimina porque corta as pernas logo à nascença consoante a cor que tens. Um preto nascido no bairro, classe baixa, que ainda são a maioria, não vai sonhar da mesma forma que um branco classe média, que são a maioria. Não vai achar que é capaz de tirar um curso superior, seja porque lhe incutiram desde cedo que não tem capacidade, seja porque precisa de ir trabalhar para ajudar a família a sustentar-se, ou seja porque vivia num meio com más companhias e viu que traficar droga era uma fonte fácil de rendimento e que a sociedade nunca lhe tinha dado o suficiente para ele lhe respeitar as regras. Não achem que estou aqui a dizer que deviam ter atenuantes nos castigos ou que não deveriam, de todo, ser punidos pela lei os que atacaram o dono da loja dos kebabs. Deviam ser presos e julgados e o gajo que tinha uma arma devia ficar preso uns bons anos. O que digo é que compreendo a raiz do problema que leva pessoas a comportarem-se assim, o que não as desculpa de nada.

Por cada preto do bairro que assalta com uma pistola, há 100 brancos de fato e gravata que nos roubam a todos.

A maioria das pessoas desculpa o seu racismo dizendo que «Os pretos também são racistas com os brancos!», como se essa acção-reacção não fosse a base da maioria dos problemas do mundo e não fosse toda ela uma premissa pueril de «Também já não queria ser teu amigo.» que leva a que só se gere mais ódio. Engraçado é que as pessoas que dizem isto provavelmente nunca sentiram esse racismo na vida. «Ah, mas uma vez fui assaltado por um preto!», dizem sem perceber que isso não é racismo, é criminalidade e se por acaso o assaltante preto só assalta brancos é porque a sociedade é ainda desigual e é muito mais provável um branco ter mais dinheiro na carteira do que um preto. A não ser que tenha acabado de assaltar alguém, claro. Mas sim, claro que há muito racismo ao contrário, mas uma coisa é racismo proactivo, outra é o racismo reactivo, enraizado por séculos de discriminação. São ambos maus, atenção, e ambos sinal de falta de inteligência, a questão é que não são comparáveis e talvez seja pela maioria não perceber a diferença que dificilmente vamos ver o fim do racismo. Não é que que os brancos tenham de carregar a cruz da escravatura e do colonialismo e andar a pedir desculpa pelos males que os antepassados andaram a fazer. Não vou pedir desculpa de nada, temos pena, mas vou perceber que isso deixa marcas que não são 100 anos que apagam.

Posso falar com conhecimento de causa porque sofri muito racismo por ser dos únicos brancos das turmas por onde passei e por ser dos poucos brancos a jogar à bola no ringue da Buraca. Fui discriminado porque as crianças são más e rejeitam tudo o que é diferente. No 5º e 6º ano, eu era o diferente, a minoria, o branco, o pula. Era tanta maldade que chegaram a votar em mim para delegado de turma! Vejam bem o preconceito das crianças que só por eu ser branco partiram do princípio que tinha de ser responsável. Não quero estar aqui a comparar escravatura com ser delegado de turma, até porque nunca fui escravo e não posso ter a certeza, mas entre levar chibatadas no lombo e ter de carregar as bolas de basquete para o campo, não sei o que é pior. Ademais, quem gosta de jogar basquetebol? Não era, certamente, o único branco da turma.

Não tenho problemas em assumir que a maioria da criminalidade na minha zona é feita por pretos. Não tenho problemas em dizer que 99% das vezes que fui assaltado quando era miúdo foi por pretos. Não tenho problemas também em constatar que sou inteligente e que nunca deixei que a minha experiência num contexto específico toldasse a minha forma de ver o mundo. Percebi cedo que o problema não era a cor da pele, mas sim o contexto socioeconómico da zona e que era óbvio que um bairro problemático com pessoas maioritariamente pretas seria um incubador de criminosos pretos. Basta mudar geografia para termos a mesma taxa de criminalidade, mas perpetrada por brancos, também eles no mesmo contexto socioeconómico.

«Não sou racista, até tenho um amigo pre… neg… escu… de cor, pronto.» 

Mentira, 99% das pessoas que diz isto não tem amigos pretos. No máximo, um mulato que conheceram uma vez num jantar de aniversário, ou apertaram a mão do Mantorras no fim de um jogo. E reparem, também não tenho nenhum amigo preto. Pelo menos assim mesmo amigo do peito, embora conheça vários e fale regularmente com alguns. Mas, também, não tenho nenhum amigo loiro, por exemplo. Está no mesmo patamar. Quando alguém larga a frase que tem um amigo preto, para justificar a sua falta de preconceitos, é o mesmo que dizer «Nem sou machista, até tenho uma mulher lá na cozinha.».

«Porque é genético e os negros são mais burros e mais propensos à violência.» dizem alguns porque uma vez viram um estudo na Internet. Só para efeitos de reflexão vamos admitir que sim. Vamos admitir que a evolução foi diferente em cada uma das raças e que tal como o Pastor Alemão é mais inteligente do que o Chihuahua, também nos humanos uma parte da inteligência é determinada pelos genes, coisa que acredito que seja, e que há uma diferença substancial entre os pretos e os brancos. E então? Mesmo que fosse? Isso dava-lhes menos direitos? Uma criança branca que nasça com défice cognitivo também tem menos direitos? É menos pessoa só por ser mais burra? E o que fazemos com o resto dos brancos burros, que são a maioria? Vamos discriminá-los? E o que é inteligência, já agora? Mede-se pelo QI? Então e a inteligência emocional? Há quem diga que a inteligência se mede pela forma em que conseguimos adaptar-nos a uma situação e sobreviver preservando o que nos rodeia para coexistirmos em harmonia. Se formos por aí, os brancos são os mais burros, que andam a destruir o planeta enquanto ainda existem muitas tribos de pretos que vivem em sintonia com a natureza. Será que ser inteligente é ter um iPhone ou é saber trepar a uma árvore para apanhar cocos? É por aí que a questão da inteligência entre as várias raças ou etnias não leva a lado nenhum. Não digo que não se façam por questões de investigação científica, mas trazer essa discussão para a esfera pública como motivo para se discriminar A ou B, é só estúpido. Aliás, façamos o seguinte: um estudo de inteligência entre quem se assume e/ou tem comportamentos racistas, e os restantes. Se calhar aí tínhamos um resultado bastante conclusivo e podíamos todos começar a discriminar com base no número de QI que lhes tatuariam na testa. Aliás, eu aqui me confesso: eu discrimino pessoas burras. Sei que é errado porque é genético e cultural e muitas não têm culpa, mas foda-se o que eu odeio gente burra que se acha inteligente.

Racismo não é achar que somos diferentes. Racismo é achar que devido às diferenças que temos, temos direitos diferentes.

Há quem não perceba isso. Tal como machismo não é achar que as mulheres conduzem pior do que os homens. Machismo é achar que as mulheres por conduzirem pior não deviam ter o direito de tirar a carta de condução. Tal como algum branco dizer que não se sente atraído por pretas, ou vice-versa, não é racismo. É a mesma coisa que não achar graça a loiras, ou a morenas, não é racismo, é uma preferência. Por isso, também não achem que para não se ser racista tem de ser-se politicamente correto e tratar tudo com pinças. Quem faz isso é porque na verdade discrimina e precisa de eufemismos para apaziguar a sua consciência.

Muitos lembram-se da frase emblemática de Martin Luther King e acham que o sonho dele já se cumpriu só porque na lei diz que não se pode discriminar. Infelizmente, recordo-me mais vezes da frase de uma criança numa reportagem antiga num país africano que dizia «Nunca sonhei porque... não é fácil.»

PS: Já sei que me vão ofender devido a este texto só porque disse que os Pastores Alemães são mais inteligentes do que os Chihuahuas.





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