3 de janeiro de 2018

Frases feitas e clichés que fazem comichão



Há uma série de frases que não passam de lugares comuns e clichés que se pensarmos bem nelas, irritam um bocadinho. Algumas são uma espécie de ditados, outras apenas expressões que não fazem sentido e que deveríamos deixar de dizer.

«Gostos não se discutem»
Dito por pessoas que têm um gosto de merda e sabem disso, mas não querem admitir. Claro que os gostos se discutem. Se me vierem dizer que Maria Leal tem a mesma qualidade que Jorge Palma, claro que vou discutir esse gosto e a seguir chamar as autoridades para que internem essa pessoa que, claramente, não está na posse de todas as suas faculdades mentais. É como dizer que «A qualidade é relativa». Não é. A qualidade do público é que e relativa e a maioria das pessoas é da loja dos trezentos.

«Eu, sinceramente, acho que...»
Ainda bem que avisas que vais dar a tua opinião sincera. Posso assumir, então, que de todas as vezes que não explicitaste que estavas a ser sincero é porque estavas a ser aldrabão? A juntar a esta, normalmente dizem «Eu, pessoalmente, acho que na minha opinião...», o que é estranho. Pensei que falasses com a opinião de outra pessoa e que falasses colectivamente.

«Temos de dar 110%»
Lamento, mas é matematicamente impossível. É impossível dar mais do que 100%. Peço desculpa, mas não fui eu que inventei as leis da física. «Oh Guilherme, não sejas assim, isto é uma metáfora hiperbolizada para mostrar que devemos esforçar-nos.». Claro, então porquê dar 110% apenas? Já que vivemos num mundo de fantasia sem lei, parece-me xonice apenas sonhar com 10% a mais do matematicamente possível. Porque não começar a dizer «Temos de dar infinitos por cento.»? Se é para ser matematicamente incorrecto a bem da mensagem, que se sonhe alto.

«Tens de ter calma»
Muito obrigado por esse precioso conselho. Estava eu aqui com um ataque de pânico, a pensar que posso morrer a qualquer momento, mas ainda bem que apareceu alguém sensato como tu a dar uma sugestão dessas, tão fora da caixa! És um génio! Já pensaste ir para terapeuta ou para negociador de reféns? «Ah, vai agora matar a velha e a criança! Não diga disparates. Você está nervoso, tem de ter calma.»

«Tudo acontece por uma razão»
Certo. Se eu te der um chapadão à padrasto depois de usares esta frase, é facto que aconteceu por uma razão que foi a de teres dito esta frase estúpida. Claro que tudo acontece por uma razão, embora sejam os factores que levaram a que tal acontecimento ocorresse e não uma razão futura, estilo destino, que é o que as pessoas querem dizer quando usam este cliché. As pessoas têm dificuldades em perceber que o mundo é injusto e que há coisas que acontecem por obra do acaso, sem qualquer razão nem plano futuro. Esta frase é a versão «Foi vontade de Deus» das pessoas que dizem que não são religiosas, mas sim espirituais e acreditam em Reiki e Astrologia e nessas cenas sem qualquer fundamento científico. No entanto, dou a mão à palmatória e realmente acreditam nessas coisas por uma razão: que é serem burras.

«São muitos anos a virar frangos»
Nunca cozinhaste um frango no espeto, aposto. Se as Finanças sabem que andas a virar frangos há anos, ainda aparecem para saber porque não declaras essa actividade profissional. Ninguém passa anos a virar frangos apenas para consumo próprio. Nem sabes estrelar um ovo, quanto mais assar um frango no espeto em condições. Quando alguém me diz esta frase, só me apetece responder com outro cliché palerma e dizer «Virar frangos há anos? Olha, ao menos tens emprego.»

«É o que é / Vale o que vale»
Se fosse o que não é ou valesse o que não vale é que era de estranhar. O silêncio deixa as pessoas desconfortáveis e por isso sentimos a necessidade de dizer coisas que apenas são desperdício de oxigénio. Dizer «É o que é» é o mesmo que comentar no Facebook a dizer «Nem vale a pena comentar...». É parvo. Não ter nada para dizer, em muitas situações é sinal de inteligência e não devemos ter vergonha de nos remeter ao silêncio.

«A idade é apenas um número»
Sim, mas é também uma medida de tempo que é bastante eficaz a prever, em média, quantos anos te restam de vida. Se a idade fosse um número, os jogadores de futebol não se reformavam tão cedo. E sim, ter um espírito jovem é importante, mas seres um senhor de 50 anos a deixar comentários "sensuais" a raparigas de 16 no Instagram não faz de ti jovem cool: serás sempre visto como um velho creepy. Na mesma temática existe a expressão «Velhos são os trapos», também ela parva. As pessoas e seres vivos é que podem ser velhos:e se eu deixar um trapo no armário, daqui a 10 anos ele vai estar mais ou menos na mesma, tirando um ou outro buraco de um traça, enquanto que se deixar uma senhora de 90 anos, ela vai estar morta e decomposta.

«O amor não escolhe idades»
Claro que não, Carlos Cruz. Mostrem-me uma jovem de 24 anos, rica, a casar com um velho decrépito de 92 com uma reforma de 300€ e eu vou acreditar que o amor não escolhe idades.

«O frio é psicológico»
Lamento, mas não é. O frio é um conceito subjectivo, sim, mas baseado na nossa percepção relativamente a medidas científicas de transferência de energia e de agitação entre moléculas. Se o frio fosse psicológico, as marcas que vendem luvas e gorros estavam todas na falência. Se estão menos dois graus e estás de t-shirt, não é o poder da mente que vai fazer com que fique calor. Podes suportar o frio, mas no dia a seguir estás doente, porque o frio não é psicológico e quem diz isso é sempre quem trouxe casaco com forro e cachecol.

«Vamos concordar que discordamos»
Quando alguém usa esta frase é sinal que já ganhámos a discussão e a outra pessoa quer pedir um empate técnico para fugir à conversa. Não, lamento, mas não vamos concordar que a tua posição de que o Hitler até foi um gajo que fez umas coisas boas é válida. Não é, temos pena. «São opiniões», dizem outros. Sim, são opiniões, mas a tua é uma opinião de merda. És burro, ignorante e desinformado e não vou concordar em discordar contigo. Vou antes aceitar que és um merdas e dizer-to na cara até me cansar e perceber que não vais mudar porque, lá está, és um merdas. Depois disso vou desistir da discussão, mas não porque respeito a tua opinião, só mesmo porque percebi que não vale a pena.

«Vive um dia de cada vez»
Certo, porque uma vez tentaste viver dois dias de cada vez, como que a subir escadas dois degraus ao mesmo tempo e não conseguiste, foi? Viste o Clube dos Poetas Mortos no Canal Hollywood e descobriste o Carpe Diem e achas que mudou a tua vida e que és um guru motivacional? Não és, amanhã vais estar a fazer as mesmas merdas e a desperdiçar o teu tempo como toda a gente. É como a bonita citação que muita gente usa «Vive cada dia da tua vida como se fosse o último, um dia vais acertar». Parece-me um conselho de quem gosta de viver a vida sem qualquer tipo de responsabilidade. Se hoje fosse o meu último dia, provavelmente iria estoirar o guito todo, dar nas droga todas e ir às putas sem preservativo, isto tudo só da parte da manhã! Depois, passava a tarde toda deprimido e acabava o dia a chorar em posição fetal e a dizer que sou demasiado novo para morrer. É assim que devia viver os meus dias todos? Parece-me um terrível conselho vindo de quem na ultima semana do mês anda a pedir dinheiro emprestado aos amigos para conseguir pagar as contas vive como se todos os meses tivessem 21 dias.

«As desculpas não se pedem, evitam-se»
Ok, então retiro as desculpas que acabei de pedir. A merda está feita, resta ser crescido e assumir as culpas, pedindo desculpa, se me vens com essa merda que as desculpas não se pedem, então vamos começar a discutir outra vez. Isto é o mesmo que dizer a uma equipa de paramédicos que chegou tarde a um cenário de enfarte já com a vítima em paragem cardíaca «Olhe, as reanimações não se fazem, evitam-se.»

«Tenho um mau pressentimento»
Devem ser gases. Até ver, não és especial ao ponto de ter um sexto sentido premonitório que te transforma numa Maria Helena desta vida. Esse mau pressentimento é só o teu pessimismo a falar ou o teu cérebro a calcular probabilidades e detectar padrões. «Vais atirar-te do terraço para a piscina? Epá, tenho um mau pressentimento.». Não é um pressentimento, é só bom senso. Não és especial, não tens pressentimentos. Aquela vez que ficaste mal disposto a meio da noite e depois descobriste que foi porque a tua namorada estava na cama com o Wilson não foram cornos telepáticos, foi só coincidência até porque devia ser recorrente e em qualquer noite que sentisses isso ela estaria a enfeitar-te a testa. O mesmo se aplica para a expressão «Isto e o meu sexto-sentido feminino.». Tretas. Não existe. O que existe é a capacidade inata às mulheres de fazer filmes e novelas na própria cabeça e por uma questão de probabilidade, às vezes acertam. A minha mãe já teve tantos pressentimentos de sexto sentido feminino e intuição de mãe, que me tinha acontecido alguma coisa, que é normal que um dia acerte.

«Ainda dizem que estamos em crise»
Diz alguém quando vê o centro de comercial cheio ou os restaurantes com fila para entrar. Calma contigo, Salazar da Amadora. Ter dinheiro para jantar fora ou fazer compras não é coisa de rico e achares que é só pode ser sinal que és um privilegiado que não sabe o que custa a vida. Há muita gente que gasta o dinheiro em merda e tem as prioridades trocadas? Claro que sim, mas não é por ir jantar ao chinês do Colombo uma vez por mês que a pessoa não se pode queixar que está da crise. Se calhar foi jantar fora porque não pagou as contas e cortaram-lhe a luz, água e gás.

«O que interessa é participar»
Ah ok, és dessas pessoas que celebra a mediocridade e que ainda hoje, passados dez anos, diz a toda a gente que ficou em segundo lugar num concurso em que só havia duas pessoas participar, não é? Deve ser por isso que tanta gente joga no Euromilhões: «Saiu-te algum prémio?», «Nunca me sai nada, mas o que interessa é participar.». Tenham juízo, o que interessa é ganhar, a não ser que seja uma orgia, aí sim, interessa é participar.

«Quando a esmola é grande o pobre desconfia»
Não desconfia. O pobre fica contente se a esmola for grande. Experimentem deixar uma nota de 20€ a um mendigo a ver se ele desconfia ou se a mete logo no bolso. As desculpas que as pessoas arranjam para não ajudar os outros. «Eu até gostava de ajudar mais crianças em África, mas se faço donativos superiores e a 100€ por mês eles desconfiam e é uma chatice que também não quero trazer-lhes mais preocupações.»

«Arrepende-te do que fizeste e não do que não fizeste»
Um dos lugares comuns mais estúpidos de sempre porque não fazer algo pressupõe ter-se feito algo. Por exemplo: vou arrepender-me de não ter dançado todo nu na rua da Oura no verão de 2002? Ou vou arrepender-me de não ter ficado vestido e sóbrio na rua da Oura no verão de 2002? Percebem o conflito? Ninguém diz «Se há coisa que me arrependo na vida foi de não ter cortado um pé. Era tão melhor ter cortado e ficar arrependido disso que ao menos assim sabia.»

«Fica bem, um abraço.»
Dito por alguém que te está a dar um aperto de mão. Portanto, alguém se está a despedir de ti, com um aperto de mão, com a perfeita oportunidade de te dar um abraço, mas prefere enviar-te o abraço imaginário. Se não tens assim tanta confiança ou gosto pela pessoa para lhe dar um abraço a sério, escusas de fingir no fim de um aperto de mão frio que até tens simpatia pela pessoa. É a mesma coisa que depois de um encontro do Tinder que não deu em nada, a rapariga despedir-se com dois beijinhos e dizer «Vá, fica bem, um felácio.»

«Na minha modesta opinião»
Sabes que afirmar a própria modéstia é um paradoxo, certo? É como dizeres que a tua melhor qualidade é seres humilde. Quem é humilde não diz que é humilde porque dizê-lo é falta de humildade. Se não tens confiança na tua própria opinião e achas que deve vir com aviso de modéstia, então tenho um conselho para ti: agarrares nessa opinião e enfiares no teu modesto rabo. Por falar em conselhos: «Se os conselhos fossem bons vendiam-se, não se davam.», alguém imediatamente antes de te dar um conselho que tu nem pediste.

E pronto, estamos conversados por hoje. Até amanhã, se Deus quiser. À partida, deve querer que o gajo ameaça, mas não cumpre.

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PS: Pessoal de Leiria, dia 13 de Janeiro, vou estar no Teatro José Lúcio da Silva para um bonito espectáculo de stand-up comedy e outras cenas. Podem comprar bilhetes neste link. Obrigado.



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