15 de janeiro de 2018

Super Nanny: bullying gratuito ou educativo?



O novo programa da SIC, Super Nanny, está a gerar controvérsia. Será bullying gratuito ou educativo? Primeiro, o programa devia chamar-se "Pessoas que não deviam ter filhos". Vi até ao fim, para ver se nos patrocinadores do programa estava a Durex, Control e Anal. Eu já não quero ter filhos, mas calculo que um casal que estivesse a ovular, depois de ver o programa, vá antes ver uma série em vez de praticar o coito. Dei por mim a pensar «Se a Maddie era como esta Margarida, começo a compreender e a ter pena dos pais...». Aliás, estive à espera que o conselho da Super Nanny fosse «Olhe, esta não tem remédio, é deixar sozinha em casa e deixar a porta aberta a ver no que dá.».

Parece-me incoerente dizer-se a uma criança que não deve dar conversa a estranhos e depois meter-se uma estranha lá em casa a dar-lhe ordens. A criança vai ficar confusa e de cada vez que aparecer uma senhora na rua vestida de secretária de filmes pornográficos, vai fazer tudo o que ela mandar. Acho estranho que uma mãe sujeite um filho àquela exposição, embora um pouco de humilhação possa ajudar a miúda a atinar. Deve ser essa a estratégia, já que a perspectiva de vergonha a nível nacional pode ser um detractor de comportamentos desviantes como a birra com ranho por causa do iPad. Que tipo de pais sujeitam uma criança àquele vexame público? Serão o mesmo tipo de pais que educam mal uma criança ao ponto de precisar destas medidas drásticas? Pois, coiso. Já estou a imaginar a conversa da mãe com a miúda no primeiro dia das gravações:

- Margarida, ai de ti que hoje não faças birra!
- Porquê, mãe?
- Porque vem cá a Super Nanny a casa e se não te portas mal ainda corremos o risco de não aparecer na televisão!
- Está bem, mãe, prometo que vou dar o meu pior!
- Isso, berra, grita, bate-me e prometo que te deixo ver o Wuant e o D4arkFrame.

Depois, parece-me mau o estereótipo de géneros. Se em alguns países estão a proibir anúncios que coloquem mulheres como donas de casa, acho que seria sensato colocar um homem como o Super Nanny. O Super Nando, que tem cinco enteados com hiperactividade, experiente em distribuir chapadas à padrasto a torto e a direito e que impõe respeito como deve ser. Banquinho dos castigos parece-me palermice e ainda vem alguém dizer que o banco não é bom para a postura e que devia ser a poltrona de massagem dos castigos porque as crianças são o melhor do mundo. Aliás, indo na linha de que o Super Nanny devia ser um homem, penso que este programa era a oportunidade ideal para o Carlos Cruz voltar à TV.

Quem melhor do que ele sabe como persuadir crianças a fazer o que não querem? Quem é que tem mais experiência na TV a convencer crianças a comerem o que não gostam?

Sim, o orçamento iria derrapar com a compra de ténis da Nike, mas a ver se a Margarida não comia a sopa toda. A Super Nanny tem outras armas como o seu ar intimidatório, é certo. Tem ar daquelas mulheres que dizem que os homens têm medo de mulheres independentes, como desculpa para estarem encalhadas. No entanto, sinto que a produção podia ter-se esmerado um pouco ao nível da caracterização: se a Super Nanny tivesse um chicote na mão e bebés mortos à cintura, a miúda era capaz de respeitar mais. Mas isto sou eu que não sou nenhum Carlos Cruz ao nível da persuasão infantil.

Fui vendo o programa, enquanto estava no computador a ver um documentário sobre a mortalidade infantil em Angola, e fiquei chocado com o que vi na SIC. Só me passava pela cabeça o bullying que a Margarida irá sofrer na escola agora que os colegas perceberam que ela é uma criança mimada. Dizem que a minha cadela é que é raça potencialmente perigosa, mas aquela criança nem com açaime e trela curta eu deixava chegar perto. É mais fácil domesticar um diabo da Tasmânia adulto e com cadastro do que aquela linha de montagem de ranho e birras. Aliás, senti falta de técnicas à Cesar Millan, como por exemplo dar um ligeiro biqueiro nas costelas da criança quando ela não parava de estrebuchar. Isso e mandá-la dormir no chão frio da cozinha. Acho que a violência não resolve nada, mas às vezes ajuda. A minha mãe, uma vez, atirou-me um rissol congelado tipo estrela ninja sopeira e eu acalmei logo a birra.

Claro que o programa até pode dar jeito a alguns pais e dar algumas dicas importantes, não digo que não, mas que tal, em vez de um programa sensacionalista, mandarem um vídeo ou uma newsletter a todos os pais? Que tal um workshop obrigatório para ter filhos? Que tal, até, uma licença para procriar?

- Vejo aqui, na sua timeline do Facebook, que partilha citações do Pedro Chagas Freitas e que fez like num post da Maria Vieira contra a vinda dos refugiados, estou correcto?
- Está sim senhor, é uma grande mulher e o Chagas Freitas só fica atrás do Gustavo Santos.
- Pronto, para evitar sobrepopular o planeta com mais crianças que vão sair aos pais, vamos lá proceder à vasectomia e a laqueação das trompas.

Não quero estar aqui a julgar o desespero de uma mãe que a leva a recorrer à Super Nanny, (não queria, mas julgo na mesma) por isso, talvez, a culpa não seja dela, mas sim de quem achou que este programa era giro. E é, eu pelo menos ri-me. No entanto, reconheço que tem uma vantagem para a Margarida que é a de ficar com boas imagens da sua juventude. Eu só tenho filmagens tremidas, desfocadas e com grão feitas na praia de Odeceixe em 1991, já a miúda teve direito a cinco câmaras profissionais e a tudo editado para mostrar só o que interessa.





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