5 de maio de 2015

Sangue gay, o corpo é que paga



Então parece que para ser homem, homossexual e dar sangue, só estando em abstinência há vários meses? Não fossem os casos de pedofilia e quase que parecia um casting para padres. Pumbas, entrada a pé juntos à bruta e ironicamente por trás. A notícia é da semana passada mas só porque sim e, correndo o risco de não acrescentar nada ao debate, também vou opinar.

Primeiro que tudo, acho parvo ter-se tornado esta notícia numa luta dos direitos do homossexuais, quando a meu ver o principal é o direito a viver de quem está a morrer à espera de sangue que não chega. Esses são os verdadeiros lesados e não vi em lado algum essa preocupação como sendo o ponto fulcral da questão. Tal como no debate sobre a adopção gay, o foco não devia ser no direito dos homossexuais mas sim no das crianças. Um homossexual não doa sangue, fica arreliado e vai para casa tomar brunch, enquanto que um doente que não receba sangue, já não vai para casa, morre no hospital. Tenham calma meus ursinhos carinhosos do arco íris, eu estou do vosso lado mas por favor mudem o discurso de "Sinto-me discriminado!" para "Sinto que os doentes estão a ser prejudicados!". Aposto que assim vai ser mais fácil convencer as outras pessoas que esta lei é realmente parva. Já agora vão doar sangue, que a grande maioria dos que estão indignados nunca foi dar sangue e vão agora mais depressa como protesto do que iriam antes para ajudar o próximo.

Eu ao início não quis acreditar que esta lei tivesse como base motivos discriminatórios, tentei racionalizar e pensar que era para bem dos homossexuais, visto já perderem imenso sangue devido às hemorróidas.

Pus-me a pensar e não foi preciso muito para perceber o piquinho de homofobia que esta lei traz no bico. Um bico totalmente hetero, de mulher para homem, claro.

O presidente do Instituto do Sangue diz que não se trata de catalogar como grupo de risco os homossexuais homens pela sua orientação, mas sim pelo seu comportamento. Pouca gente percebeu o que ele quis dizer, achando que se estava a contradizer mas eu passo a explicar: O risco é praticar sexo anal com outros homens e não o gostar de o fazer. Será considerado no mesmo patamar de risco um homem que tenha sido violado analmente na semana passada, do que um que o fez por prazer com um gajo que conheceu na discoteca. Digam lá se a minha explicação não foi boa e quase que por momentos parecia que esta lei não era discriminatória. Embora eu não tenha a certeza se o que está por trás desta lei é a homofobia ou apenas a incompetência. Temo que sejam as duas.

Vocês perguntam "Mas o sangue não é todo testado?". É sim, mas pelo que diz o senhor, há risco de não ser detectado o HIV se o contágio tiver sido recente. O quê?! Então quer dizer que todas as transfusões de sangue são à confiança? Em princípio não é sangue infectado mas vai-se a ver há probabilidade de ter bicho? Não sou médico, mas algo me diz que é possível ter o sangue acondicionado de tal forma a que passado uns meses, seja testado outra vez e já se detecte o HIV, caso seja positivo. Chamem-me má língua, mas acho que ele disse isto só para a população entrar em pânico e concordar com a lei, já que que contrair HIV numa transfusão de sangue não deve ser agradável, que o diga a Leonor Beleza. Mas mesmo que não seja possível eliminar essa incerteza sugiro o seguinte processo. Para os casos menos graves, que podem esperar ou que não necessitam de sangue para escapar à morte, dê-se-lhes o sangue bom, em que há certeza que não está contaminado. Para os outros, os que estão quase a quinar, aqueles que se não lhes for dado uma litrosa de plasma morrem, dêem-lhe o sangue possivelmente estragado, aquele com piquinho a azedo. Mais vale ficar com HIV do que morrer, digo eu. Pelo menos são mais uns anitos com qualidade de vida e com sorte a cura aparece. Como é que ninguém pensa nestas coisas? Obviamente que têm que se informar os riscos ao paciente e fazer-lhe algumas perguntas antes da transfusão:

- Concorda com o casamento gay? - pergunta o médico.
- Não! Casamento entre maricas é pecado! Deviam todos morrer! - diz o senhor Aniceto no leito da morte.
- Ahhhh... que chatice. É que para o senhor Aniceto sobreviver, só temos aqui pacote de sangue mas é maricas. É que nem é um sangue bissexual, é mesmo um sangue bichona, bichona! Até me admiro isto não ser cor de rosa e com purpurinas.
- Mas se eu não receber isso, faleço?
- Sim, lamento imenso.
- Ó homem, venha de lá esse sangue maricas então que eu não quero morrer!
- Ah, sabe o que é? É que agora já não pode ser. Então o senhor não reconhece os direitos dos homossexuais... Eu nem é por mim, mas sabe como é... legislação e burocracias. Vá, feche os olhos deixe-se ir.

O sistema funcionava melhor e até se alargava esta medida ao racismo.

Voltando ao cerne da questão, haverá maior percentagem de casos com HIV em homens homossexuais do que em qualquer outra fatia da população cortada por orientação sexual? Não sei, eles dizem que sim mas mesmo a ser verdade não deixa de ser curioso que um homem hetero que tem a mesma parceira há 10 anos possa dar sangue, mesmo que essa parceira seja prostituta. Daquelas da recta da Reboleira que à noite acaba sempre o turno numa orgia com 10 toxicodependentes, enquanto se injectam com a seringa autografada do Magic Johnson. É nesta grande incoerência que reside a discriminação da lei e que pode fazer com que lhes saia o tiro pela culatra, já que agora vai ser um corrupio de gays aos postos de doação de sangue, que chegam lá e mentem, só para contornar o sistema em forma de protesto. Nem duvidem que isso vai acontecer e por um lado é bem feito, porque só demonstra o quão ridícula é a lei. Já estou a ver as entrevistas de despiste:

- Qual é a sua banda favorita? - pergunta a enfermeira.
- Katy Perry... e Iron Maden.
- Hum... e o seu restaurante favorito?
- Ali o Espaço Gourmet... é a seguir! Logo à direita fica a tasca do Manel da Rinchoa. Ui, o que eu adoro comer o entrecosto na brasa sem salada nem nada!
- Ryan Gosling ou Adriana Lima?
- A Adriana Lima veste-se com mais estilo...
- O senhor é homossexual, não é?
- Eu??!?!?! Por amor da santa!!! O que eu gosto de um bom naco de pipi! Não me dá vómitos nem nada!
- A expressão naco de pipi é um bocado gourmet. Confesse lá que é gay.
- Pronto, sou sim senhora. Mas não pratico vai para cima de 1 ano!
- Esteve sempre em abstinência durante esse tempo?
- Não, tenho bebido uns daiquiris.
- Estou a falar em termos de sexo.
- Em termos de sexo sim.
- Consegue provar-me?
- Conseguir consigo mas agora já sabe que sou gay não vale a pena o esforço. Dlhac.

O rapaz dá sangue e pronto, é como se a lei não existisse.

Uma lei que não cumpre o propósito para que foi criada e só serve para rotular pessoas por orientação sexual, é uma lei homofóbica que traz consigo o efeito colateral de estigmatizar ainda mais.

Sim, se fosse cumprida nem o Freddie Mercury nem o António Variações poderiam dar sangue, o que leva muita gente a aplaudir esta medida, dizendo que não quer receber sangue de homossexuais porque provavelmente têm SIDA. Mas sinceramente, não sei se não preferia ter a honra de ser salvo com sangue de um deles, mesmo que infectado, do que com sangue limpinho de um dos que pensa isso. É que provavelmente o HIV vai ter cura daqui a 15 anos, enquanto que para a estupidez e a homofobia nunca vai haver uma vacina.





Gostaste? Odiaste? Deixa o teu comentário: