15 de maio de 2015

Shark Tank: O pitch completo dos Pastorinhos



Três jovens empreendedores de Cova da Iria entram no Lago para tentar convencer os cinco tubarões a investir no seu negócio.


- Olá tubarões. Eu sou a Lúcia, estes são os meus sócios, Francisco e Jacinta. Estamos a oferecer 10% do nosso negócio por 100 milhões.
- Elá, você deve ter aí um belo negócio! - diz o João.
- Bem, ainda é apenas uma ideia... - continua Lúcia.
- Você avalia a sua ideia em mil milhões? Agora fiquei curioso. - diz o Mário.
- A nossa ideia chama-se "Milagre de Fátima" e consiste em nós inventarmos uma história rebuscada dizendo que vimos Nossa Senhora no cimo de uma árvore, para que Fátima seja falada em todo o mundo e seja conhecida como um local milagreiro e de fé, a donde rumarão milhões de pessoas todos os anos, muitas delas a pé e quem sabe de joelhos. Sonhar não custa. - explica Lúcia.
- Eu não gosto muito de árvores e só por isso estou fora. - diz invariavelmente a Susana.
- Interessante... e como é que pensam fazer dinheiro?
- O modelo de negócio tem 3 fontes de receita: Lojinhas que vendem bugigangas, ou seja merchandise; donativos dados pelos clientes, quer dizer, crentes; e também investimento externo. O melhor de tudo é que é um negócio isento de impostos! Aqui o estado não mama é nada!
- Well... tenho que dizer que é genial! Acho que é a billion dollar idea! Não consigo encontrar razões para não investir... - diz o Tim já todo excitado.
- Quando fala em investimento externo, pode especificar? - pergunta o João.
- Sim, temos já um angel investor da Vaticano Ventures.
- E onde pensam gastar o dinheiro?
- Bem, nós vamos gastar uma parte para contratar uma equipa de criativos de elite, para inventar 3 segredos que profetizam acontecimentos importantes, que supostamente nos são ditos por Nossa Senhora e que serão a  base da nossa estratégia de activação de marca. - explica Lúcia.
- Vocês já pensaram que podem poupar esse dinheiro todo, se apenas revelarem os segredos depois das coisas acontecerem? - sugere o Miguel.
- Olha que não é mal pensado não. Ficamos apenas com o quarto segredo que nunca podemos revelar. O segredo de que é tudo inventado e é esse segredo que é a alma do negócio. - diz Lúcia com um sorriso safado.
- Desculpem interromper, mas há pouco parece-me que não me ouviram dizer que estava fora e só por essa razão estou fora. - reafirma Susana.
- Realmente vocês têm a lição muito bem estudada. Let me ask you a coisa, como é que pretendem educar o consumidor? - pergunta o Tim.
- Educar?! Não, para este negócio funcionar bem, até convém educar o mínimo possível. - graceja Lúcia.
- Hahahah, você tem um piadão Lúcia. E patentes, têm? - pergunta o João.
- Temos sim e até já há pessoas a infringi-la que pretendemos processar.
- Quem?
- A Maya e a Maria Helena, essas aldrabonas.
- Ok, não é uma concorrência muito forte. Já pensaram em ter o endorsement de algumas celebridades?
- Sim já. Conseguimos fechar contrato com Jesus para ser um dos embaixadores da nossa marca. - diz Jacinta.
- O treinador do Benfica?
- Não, o Cristo. Tivemos que ir para a segunda opção porque infelizmente ainda não temos budget que permita contratar o JJ e também achámos que poderia ser uma parceria perigosa, já que colinho de homens de preto, sendo que no nosso negócio serão padres, poderia dar aso a mal-entendidos. - explica Lúcia.
- Sim senhora, vocês sabem sem dúvida o que fazem. Eu vou oferecer exactamente o que vocês estão a pedir, porque confio em vocês! Parecem-me pessoas honestas. - oferece o Mário.
- Obrigado, sim levamos muito a sério o negócio de vender falsas esperanças a pessoas. - agradece Jacinta.
- Eu não sei, gosto do conceito, acho que tem potencial mas em termos de branding parece-me um pouco fraco. Ponderariam alterar o nome para "Milagre da Fatinha"? - interroga João.
- Pensámos nisso, mas o Arquitecto Tomás Taveira disse que só cedia os direitos do nome caso pudesse construir uma Igreja no santuário e então tivemos que rejeitar, porque ninguém quer ir rezar a Chelas.
- Fizeram bem, mostra visão da vossa parte. Estou convencido. Tim, queres entrar comigo? Vamos os dois, por 200 milhões por 20%?
- Yes João. Very nice. Vamos lá to that.
- Susana, não queres reconsiderar e entramos os dois? - tenta Miguel.
- Não Miguel, é que me esqueci da carteira em casa e só por isso continuo fora.
- Então eu também estou fora, mas vou ser cliente.
- Vocês se forem inteligentes, sabem que dois tubarões são melhores que um. E o Tim fala americano, o que é uma mais valia porque eu não sei e calculo que 3 crianças do interior de Portugal também não saibam. - diz João ao seu estilo bonacheirão.
- Vocês sabem que eu vou ser o primeiro português no espaço, não sabem? Posso inclusivamente dizer, para dar credibilidade, que vou lá acima falar com Nossa Senhora para acertar os royalties dela. - diz Mário.
- Bem, quem é que ofereceu o quê? É que eu não vejo um piço à frente e não conheço as vozes. - diz Lúcia.
- Afinal enganei-me, você não tem visão nenhuma! Hahahaha! - diz o João, provocando uma risota geral.

Resumindo, quem tem fé muito bem, eu também adorava ter. Agora quem não acredita que isto tudo não passa de um negócio, é porque acredita em coisas mais improváveis que a existência de Deus. Aliás, os primeiros a ficarem ofendidos e acharem nojenta toda a capitalização que se faz em nome de Deus, deveriam ser os verdadeiros Cristãos.


Como diria Kevin O'Leary "Yeah baby! It's all about the money!"





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