27 de junho de 2017

Estou velho: fiz um cruzeiro aos 30 anos



No verão passado fiz um cruzeiro. Na altura não me apeteceu escrever sobre isso, mas agora vou contar-vos essa experiência. Para efeitos de não levar com processos em cima, não vou dizer qual foi a empresa. Foi assim tão mau? Não, mas gosto de dizer mal de tudo e, na verdade, foram um bocado aldrabões. Comecemos pelo início porque não vale a pena uma narrativa não linear para vos contar esta história. Poder-me-ia armar em David Lynch, mas acho escusado.

Foi daqueles cruzeiros mais baratos, 8 dias no Mediterrâneo, marcado por impulso na Internet porque já havia pressões externas, vulgo namorada, a dizer que já estava muito em cima para se marcar férias. Iríamos os dois e, sendo ela uma princesa como quase todas as mulheres, sou sempre eu que trato de tudo e, por isso, desta vez, precisava de férias daquelas que se mete uma pulseira e não se tem de conduzir, nem escolher restaurantes nem hotéis e com empregados em todos os cantos que tratam de nós.


Sendo que ir passar férias para uma plantação de café no tempo da escravatura estava esgotado, o cruzeiro pareceu-me o mais adequado.

Isso e porque um cruzeiro é excelente desculpa para alguém que, como eu, tem medo de andar de aviãoQuando disse que foi daqueles baratos, isso era o que pensava inicialmente, mas já lá vamos. Depois de comprar os bilhetes e de ir para Barcelona de comboio porque avião é para quem gosta de facilidades e não sabe esperar pelas coisas, lá chegámos ao porto de embarque. Navio grande e imponente, com muitas janelinhas pequeninas, especialmente as dos quartos em baixo que seriam os nossos porque, lá está, eram os mais baratos. Ao fazer o check-in percebi que onde há preconceito há fogo e que aquela ideia de que os cruzeiros estão cheios de pessoas na última volta da vida, é, de facto, verdade. Muitas cabecinhas grisalhas com chapéus de palha a arrastar malas que se não tivessem rodas só conseguiam levar uma muda. Depois de uma hora à espera, lá fizemos o check-in e foi nessa altura que nos pediram para pagar as gratificações dos empregados. Noventa euros por pessoa, vai buscar. Eu que nunca dou gorjetas, estava ali a ser extorquido por uma senhora vestida à capitão Iglo. Reclamei:

- Pero, gratificaciones só lo se paguien dan lo finale de la viaje despues de lo servicio sere bueno, no? Si o que? - disse eu no meu castelhano irrepreensível que aprendi a ver o Narcos.

A senhora não foi na conversa e, ao que parece, é obrigatório e estava naquelas letras pequeninas do contrato. Na verdade, já sabia, mas achei que era giro começar as férias indignado e mostrar que a alma lusitana que expulsou os espanhóis ainda está viva! Paguei, enquanto resmungava calão em português, mas a partir daquele momento incumbi-me da missão de dar despesa ao cruzeiro, fosse no bar aberto ou nos buffets. Subimos as escadas para o navio e mal se entra esquece-se que se está num barco: aquilo é um hotel flutuante! De duas estrelas, mas um hotel. Descemos as escadas até ao nosso quarto que era uma espécie de caixão com cama de casal e janelinha demasiado rente ao nível da água. Era, claramente e em gíria automóvel, o lugar do morto, a não ser num evento improvável de o barco ficar virado ao contrário e mesmo assim, vai lá sair pelo casco a ver se consegues. Bem, deixámos as coisas e vamos fazer aquilo que nos trouxe aqui: ficar a beber no bar e a abanar o pulso, estilo Roque Santeiro, para o empregado ver a pulseirinha e nos tratar como mestres senhoriais. Todos os empregados eram simpáticos, sempre de sorriso rasgado e a fingir muito bem que estavam mesmo interessados no nosso bem estar. Talvez fossem sinceros, já que as gorjetas já as tinham no bucho, os lambões. A primeira noite foi de tempestade: deitado na cama sentia-me como naquelas noites em que um gajo se deita ainda bêbado e sente que está num barco. A diferença é que ali estava mesmo num barco e sentia o sangue a acorrer-me à cabeça e, depois, a descer consoante as ondulações. Sentia as ondas a bater na janelinha e à primeira vista parecia que estava num submarino, mas lá adormeci, embalado por Poseidon e por Johnnie Walker.

O segundo dia foi todo passado em alto mar a caminho da primeira paragem. A tempestade já tinha ficado para trás e o bom tempo convidava a banhos na piscina. Piscina essa que era demasiado pequena para aquela gente toda e havia sempre aquela típica dança das espreguiçadeiras em que o pessoal armado em esperto ia deixar as toalhas antes de ir tomar o pequeno-almoço para reservar lugar. Nada que atirar a toalha para o chão e levar a cadeira para outro sítio não resolvesse. Há sempre quem seja mais esperto! A piscina estava mais lotada do que uma carrinha de ciganos, mas ia dando para molhar os pés. 


O pior eram os jacuzzis que estavam sempre, mas sempre, cheios pessoas pequeninas e nojentas: crianças.

Dizia lá para o pessoal não usar mais de dez minutos, mas todos sabemos que as crianças são gentalha que faz o que lhes apetece. Quando saiam de lá ficavam por perto aos gritinhos impossibilitando o relaxamento para o qual as banheiras com bolhas foram criadas. Com tanta confusão teria sido demasiado fácil afogar duas ou três crianças sem que dessem conta. Depois era chamar o empregado para recolher os corpos e trazer mais um Piña colada. Foi aqui, na piscina, que percebi a quantidade de gente feia que ali se tinha juntado. Não tenho problemas em dizer que eu e a minha namorada éramos as pessoas mais bonitas daquele cruzeiro. As menos feias, no meu caso. Senti-me como uma modelo da Victoria Secret a desfilar na Clínica Tallon. Só gente feia, muitos sem dentes e não me venham com tretas de possibilidades para arranjar a cremalheira porque entre um cruzeiro e um pivot, digo-vos que a minha prioridade seria o segundo.

Tínhamos de acordar cedo para tomar o pequeno-almoço e ir passear. Era aqui que, mais uma vez, se notava que havia gente a mais naquele barco, já que as filas para o pequeno-almoço eram consideráveis. Na frente, estavam sempre aqueles casais de gordos, que chegam ao final das férias de verão com o interior das coxas todo assado, a salivar e raspar a pata no chão como touros antes de entrar na arena. Mal abriam as portas, iam a correr sentar-se nos lugares mais perto do buffet para conseguirem tirar mini crepes de chocolate sem se levantarem. O pessoal nos campos de refugiados vai buscar comida de forma mais ordeira, mas é compreensível já que os refugiados não pagaram. Aposto que era por causa destes animais que os quartos eram arrumados e os lençóis eram trocados duas vezes ao dia. Eram estes javardos que deviam ficar o dia a comer nachos na cama enquanto os passavam pelo umbigo que servia para recipiente para o molho. A comida do pequeno almoço era de hotel de três estrelas, razoável, e como todos os dias passávamos a tarde fora nas cidades, era preciso um plano para não se gastar ainda mais dinheiro, já que este menino não vai estar a comer pizzas por 30€ em Itália. Aprendam como se faz: levar vários pães, fiambre e queijo para a mesa, fazer várias sandes, enfiar nuns sacos de sandes previamente levados para esta finalidade, e encher a mala da namorada até ficarem sandes a espreitar. Há quem lhe chame ser pobre, eu chamo-lhe ser inteligente. Não me importo de gastar dinheiro, desde que o tenha e que seja em coisas que valem esse valor. Um café, só porque estou em Roma, não passa a valer 4€. Já me tinha bastado perceber que tinha sido enganado nas gorjetas e, pior, nos portos das cidades. Quando diz no Cruzeiro que pára em Roma, eu, não percebendo muito de geografia, estou à espera que o barco atraque à porta do Coliseu e não que o porto seja a uma hora e tal de viagem de autocarro. Imaginem o que seria os estrangeiros que fazem cruzeiros a Lisboa pararem em Peniche. «Is this Lisbon? No, it's Pénis.», diriam. O pior é que esses transfers não estão incluídos no preço. Ah pois, vai buscar mais 40€ por pessoa na paragem em Roma e também em Florença.

Voltemos ao cruzeiro em si. A animação na zona da piscina era sempre variada: variava de muito má para merda. Para além de dez músicas espanholas antigas a passar em loop, fazendo lembrar a minha viagem de finalistas a Lloret del Mar, havia momentos de, chamemos-lhe, humor. O staff fazia umas danças e uns jogos, mas claramente tinham mais jeito para preparar gins. Houve um que era a recriação dos jogos olímpicos com pessoal vestido de ciclista e de acrobata e com bandeiras de vários países e devo dizer-vos que parecia um musical do La Féria, mas ainda em pior. Era mau. Muito mau. Era como ver circo com 30 anos. Até fiquei com pena deles e a achar que mereciam aquelas gorjetas obrigatórias. Deprimente e muita vergonha alheia em que só as crianças mais pequenas e atrasadas em termos de desenvolvimento intelectual é que achavam interessante. Até no lar de terceira idade onde a minha namorada é directora, ou em termos técnicos «repositora de stock de velhos», a animação é melhor. Se foi para aquilo que as minhas gratificações foram canalizadas, ainda maior roubalheira foi. Por falar em vergonha alheia, o cruzeiro tinha uma discoteca, mas que estava sempre às moscas. Os velhos dormem cedo e os gordos têm de acordar a tempo para abrir a pista do buffet, o que deixava 90% da população do cruzeiro fora desta equação. Fomos lá algumas vezes ver o que se passava e o cenário era o semelhante a uma discoteca normal em fim de noite: os tristes que pensaram que ir para aquele cruzeiro engatar alguém era uma boa ideia. Homens com esperança de que o facto de uma mulher estar presa num barco e com bar aberto fosse o suficiente para baixar os padrões e irem com eles para o quarto. Vi uma dança de acasalamento incrível, como se estivesse a ver um grupo de suricatas do Serengeti a tentar acasalar com dois antílopes. Um rapaz, esforçou-se durante uma hora, a tentar convidar a rapariga para dançar, a falar-lhe ao ouvido, a ir buscar-lhe bebidas - que neste caso nem servia de muito porque o bar era aberto - e nada. Nisto, quando o rapaz foi buscar o quinto safari cola à menina, na esperança que de que o álcool fosse o seu wing man, vem outro gajo meter-se com ela: cinco minutos e estavam a comer-se na pista. Nunca me hei de esquecer do olhar triste do rapaz, a vir do bar com duas bebidas na mão, ao ver aquele espectáculo de mamanço da boca. Estão a ver a cara de uma chita bebé quando vem uma leoa e lhe rouba a carcaça de gnu? Foi isso.


Foi como observar uma mãe foca a ver a sua cria a ser engolida por uma orca e não poder fazer nada para ajudar porque a natureza é assim: bela na sua crueldade.

As cidades estão para um cruzeiro como as bandas estão para um festival de verão: não interessam muito. No entanto, aqui fica um pequeno resumo das paragens:
  • Olbia - É uma espécie de terriola algarvia, mas com água mais quente.
  • Nápoles - É uma cidade bonita, fomos a Pompeia de comboio suburbano e digo-vos que a linha de Sintra ao pé daquele percurso de 50 minutos parecia a Quinta da Marinha.
  • Roma - Fila de três horas para entrar no Coliseu? Temos pena, não vai dar para mim. Fomos ao Vaticano e a minha namorada foi barrada por estar vestida à rameira, segundo o dress code sacro. Já escrevi sobre isso neste texto.
  • Florença - Uma cidade muito bonita, pagámos 15€ para passar à frente da fila de três horas para ver lá a Igreja ou o caraças. Comi um gelado que me custou 10€. Tal como o mundo em geral, o único problema é ter demasiadas pessoas.
  • Toulon -Um cruzeiro fazer paragem em Toulon é o mesmo que um avião fazer escala de quatro horas no Cacém. Aquela ideia do «quatro horas nem dá para visitar nada!» é uma vantagem. Ainda assim, fomos à praia que não era má excepto a areia e as pessoas. A sério, nunca vão a Toulon. É tipo Quarteira depois de uma guerra.
Com isto tudo, faria novamente este cruzeiro? Sim. Foi giro, eu é que tenho um dom especial para dizer mal de tudo. Vim cansado de tanto andar, com peso a mais de tanto comer, e com tonturas e vertigens durante um mês o que, pelo que vi no Google, é comum e chama-se Síndrome do Marinheiro. Como bom hipocondríaco que sou, também é possível que fosse um tumor cerebral, mas como ainda não morri e já passou um ano, devo estar safo.





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