9 de março de 2017

Olá, sou o Guilherme e sou hipocondríaco



Ontem reparei que tinha um sinal num dedo. Tentei raspar a ver se era sujo ou se era alguma crosta de uma ferida. Nada. É um sinal com, a meu ver, altas probabilidades de ser um cancro daqueles que mata em duas semanas. É verdade, sou hipocondríaco. Como qualquer hipocondríaco que se preze, a primeira coisa que fiz foi pesquisar no Google fotografias de cancro da pele e, claro, que encontrei várias parecidas. Tirei foto ao dedo, enviei para um grupo de whatsapp onde está uma amiga minha que está a tirar medicina só para ver o que ela dizia. Respondeu com o um sarcástico «Há tantos dermatologistas...», mesmo como quem não quer ser ela a dar-me a notícia de que tenho cancro. Fiz zoom na fotografia e de um certo ângulo o sinal parece mesmo uma caveira com uma foice. Fazendo zoom dá para ver que tem umas letras por baixo a dizer «Vais morrer, cabrão!».

Como está na imagem do texto, para um hipocondríaco ter uma dor de cabeça é sinal de tumor cerebral, da mesma forma que ter dor de pescoço é meningite. Dores nos ombros ou braços é sinal de ataque cardíaco e dor de costas pode ser cancro nas vértebras ou, se for mais em baixo, insuficiência renal. Dores nos pulsos e joelhos só pode ser esclerose múltipla e qualquer tosse é sinal de infecção pulmonar aguda. Não sei qual é a ligação no meu cérebro que tem este defeito e me faz passar de um ser racional, que foi treinado em ciências abstractas e a pensar em números e em probabilidades, a transformar-se num coninhas à mínima dor de cabeça. Já parti costelas, pernas, dedos e não me queixei, tenho bastante tolerância à dor, mas basta sentir umas pontadas do lado direito do baixo ventre e penso logo que é desta que vem a apendicite que já infectou e passou para peritonite e vou falecer. Depois, afinal, eram gases. O cérebro de um hipocondríaco é uma espécie de batalha campal entre um médico e uma mãe galinha que acha que qualquer espirro é sinal de gripe suína. O que seria daquela vez que tive dor cabeça em dois dias seguidos com períodos de visão desfocada? Falta de óculos que por acaso tenho mas não uso? Resultado de dormir cinco horas por dia durante meses? Cansaço acumulado e stress do trabalho? Nada disso, só podia ser um tumor no cérebro, maligno e num local que não pode ser operado. Como é que eu sabia? Tinha ido ao Google. Para um hipocondríaco, o Google é uma espécie de lobo mau mascarado de avozinha: parece nosso amigo, capaz de nos ajudar e dar conselhos, mas é o nosso pior inimigo.


Quaisquer sintomas, se forem bem pesquisados, são SIDA ou Cancro. Ambos em fase terminal.

Era de esperar que um hipocondríaco fosse muito preocupado com a sua saúde do ponto de vista da prevenção, certo? Seria uma vantagem ser hipocondríaco, mas não. Por exemplo, sou fumador, mesmo sabendo que é coisa para fazer dói-dói no pulmão e não só. O que é que leva o meu cérebro a entrar em paranóia quando ando vários dias cansado, logo a ponderar que talvez seja uma leucemia, e a relativizar os malefícios do tabaco? Não sei, mas talvez seja por pensar «O outro gajo também morreu de cancro no pulmão e nunca tinha fumado», criando assim um paradoxo hipocondríaco de não ter medo de ter doenças devido a comportamentos de risco por pensar que as terei na mesma se não os tiver. Obrigado cérebro, és um porreiro.

Um hipocondríaco é o pior pesadelo de um médico. Sou aquele tipo de paciente que quando vai ao médico já tem a certeza do que tem e desconfia sempre se o doutor relativizar a situação e disser que provavelmente é stress quando eu vi na Internet que pode ser insuficiência cardíaca. O problema é que como já apanhei muitos médicos incompetentes esse meu sentimento cada vez é mais reforçado. Da última vez que fui com a minha namorada ao hospital, cheia de dores que pareciam ser apêndice, depois de horas à espera com ela a contorcer-se, chegaram os resultados das análises e o médico disse que estava tudo bem. Olhei para aquilo e perguntei se o facto de ela ter os leucócitos acima do nível normal não poderia indiciar uma infecção como, por exemplo, uma apendicite? Resposta do médico: «Por acaso estão um bocado altos, estão, vamos fazer mais uns exames então.». Quem é o hipocondríaco com a mania que tirou medicina através do Google, quem é? Ah, pois é, afinal o menino até sabe umas coisas. Não, não era apendicite, mas podia ter sido, a questão é só essa.

Há uns tempos andava com comichões na pele. Dermatite? Alergia? Talvez, mas procurei no Google e também podia ser cancro ou sida. Para ser sida era preciso ter mais sintomas e, curiosamente, comecei a tê-los pouco depois de saber disso. Placebo ou previsão do futuro? Nunca se se sabe, por isso fui ao dermatologista e ele disse «Devem ser umas alergias ou desidratação. Beba água.». O desplante! A desvalorizar completamente os meus sintomas gravíssimos de sida, cancro e hepatite C e epidermólise bolhosa.. Perguntei ao médico se o facto de ter também os olhos meio secos e a arder não podia indicar algo mais grave e ele disse-me «Já vi que andou a pesquisar na Internet.». O tom paternalista do médico fez-me querer ter mesmo algo grave só para, enquanto morro, lhe esfregar na cara que afinal eu tinha razão.

Ser hipocondríaco é uma espécie de fé cega em que arranjamos sempre desculpas para não nos sentirmos apaziguados e para ver se temos razão nos nossos receios. Por exemplo, tenho arritmias cardíacas, mas tenho mesmo, já foram detectadas em exames, mas os médicos dizem que não é nada de grave. Pois, um gajo tenta acreditar, mas há uma parte de mim que ainda pensa «Hum... até os jogadores de futebol que fazem todos os exames e mais alguns de vez em quando quinam em campo...». De vez em quando tenho umas mais agressivas e penso «Epá, este tipo de arritmias é diferente, não foram detectadas durante os exames e têm aspecto de ser graves.». Meço a pulsação e controlo o ritmo, vou ao Google e vejo electrocardiogramas de corações avariados. Já sei identificar arritmias sinusais, insuficiências mitrais, extra-sístoles ventriculares e auriculares, tudo. Se houvesse cardiologia na Lusófona de certeza que me davam o diploma no dia da inscrição. Depois, o que acontece? Começo a entrar em stress e esse stress sobe-me o ritmo cardíaco e isso provoca-me ainda mais stress que me provocam arritmias.


E fico ali à beira de um ataque de pânico que é o Santo Graal de um hipocondríaco!

É aquela altura em que nós juramos que vamos morrer e nos despedimos deste mundo cruel, mas depois afinal ainda ficamos cá e sabe-nos bem. Uma experiência quase morte não é sobreviver a um desastre de avião, é um hipocondríaco com um ataque de pânico. Agora, raramente os tenho e quando os sinto no horizonte já sei como os controlar. Deram-me medicação, mas eu nunca a tomei. Porquê? Por causa dos efeitos secundários daquilo, obviamente. Nunca leiam as bulas dos medicamentos. Nunca.





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