26 de fevereiro de 2014

Coisas da minha (e da tua) infância



Há coisas que nos ficam na memória mesmo sem nos lembrarmos delas. A quem nasceu ali em meados dos anos 80 recordem-se lá comigo.

A minha infância foi jogar à bola do ringue, esfolar os joelhos, trazer amigos a casa para lanchar, beber leite com Milo, tostas de queijo e Cerelac. Era brincar nos escorregas e baloiços, fazer castelos e túneis na areia. Era jogar ao quantos queres, à apanhada e andar a decidir onde era o coito. Agora o coito é outra coisa, igualmente boa. Era acordar às 7 da manhã num Sábado para ver desenhos animados com o entusiasmo que hoje poucas vezes tenho. Era ver os Power Rangers, o Ren and Stimpy, os Meninos do Couro, o Inspector Gadget, o Dartacão, os Thundercats, as Tartarugas Ninja, o Condre Patrácula, os Ursinhos carinhosos e o He-Man sem perceber que ele tinha uma indumentária e um corte de cabelo bastante duvidosos.

Era jogar Spectrum, Sega e PC. Era jogar Tetris, Pacman e Prince of Persia. Era jogar Scorch com o meu primo horas sem fim enquanto não apareceu o Tomb Raider e o Virtua Fighter. Era jogar o Sonic e o Super Mario sem nunca ter visto o Sporting campeão. Era ter fatos de treino com cores berrantes como o Hugo Chávez. 


Era as mães dos nossos colegas usarem todas permanente e os pais usarem bigode.

Era ir alugar cassetes ao clube de vídeo e ter que as rebobinar antes de as ir devolver porque era bom costume. Era achar que o Sozinho em Casa era o melhor filme de sempre até aparecer o Jurassic Park. Era ter bonecos de dinossauros pela casa toda e querer ser paleontólogo ou biólogo marinho quando crescesse, com demasiada pressa de ser grande. Era ver o Kit e Michael Knight e não fazer ideia que eles não eram brasileiros. Era ver o Esquadrão Classe A e as Marés Vivas sem notar a foleirada que são. Era gostar de ver a Pamela Anderson correr. Era ler livros de Uma Aventura, dos Cinco, do Calvin & Hobbes, do Tio Patinhas e da Maga Patalógica. Era ver os desenhos da Disney até saber as falas de cor. 

Era brincar com Legos horas a fio, a criar e destruir. Passar montes de tempo à procura daquela peça minúscula que vinha no manual de instruções. Era querer ter o barco pirata e o forte dos Playmobil. Era brincar com os GI Joes, os Transformers e não achar muita piada ao Action Man. Era ter daqueles jogos com argolas dentro de agua que se tinha que carregar nuns botões para as enfiar lá num sítio. Salvo seja. Era o jogo dos hipopótamos esfomeados e da pesca com aquelas canas pequenas com íman na ponta. Era jogar Mikado e jogar Monopólio sem nunca chegar ao fim.


Era aquele da cirurgia, em que aquele osso em forma de Y era o mais fodido de tirar. Era não dizer asneiras quando se perdia. 

Era coleccionar tudo. Os Tazos, os Matutolas e os fastasmas que brilhavam no escuro que saiam nas batatas fritas. Os autocolantes do Bolicao também. Era fazer colecções de caderneta de cromos, de futebol e de carros. Era ter baralhos de cartas com gajas de mamas ao léu como o pináculo da pré adolescência. Era comer Push-Pops até lançarem o boato que fazia cancro na língua. Cá para mim foi porque era um objecto demasiado fálico.

Era ver a família toda junta no Natal. Os primos todos reunidos, os tios todos vivos e os avós saudáveis. Era andar na quinta do meu avô sem pensar em mais nada a não ser aproveitar aquele ar puro, fazer festas nos cães, ver as vacas e atirar pedras aos lagos. Era não ter saudades do passado porque ele não existia e porque se vivia ao máximo o presente. As saudades iam sendo guardadas nos bolsos para mais tarde as sentirmos.





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