12 de fevereiro de 2014

O canudo não aquece



Saiu hoje a notícia de que um estudo revelou que mais de metade dos sem-abrigo em Lisboa tem filhos e ainda que 5% são Licenciados. Eu acho que olhar por esse prisma é ser-se negativo. Temos que olhar pelo lado positivo. O nosso país tem um sistema de educação pública tão acessível que até os sem-abrigos já se começam a licenciar! O mesmo acontece com as prostitutas e empregados do McDonalds. E também de realçar que os nossos sem abrigos são tão bem tratados que até haja quem queira procriar com eles. Estas notícias é que desanimam a malta. Ponham-me a dirigir uma redacção e vão ver se isto não vai para a frente.

O estudo diz também que 87% são homens. As mulheres só dormem na rua se quiserem, essa é que é essa. Por mais feia que seja há sempre um senhor com uma caminha quentinha algures, que não se vai importar de lhe dar abrigo, e até em dar um dinheirinho extra.
48% dos sem abrigos estão na rua há menos de 3 anos. 30% desses há menos de 1 ano. Tínhamos os novos ricos, agora temos os novos sem abrigo. Espero que não sejam tão parvos e manientos como os primeiros. É a prova que nos últimos anos temos tido boas políticas e que temos elegido os melhores governantes possíveis.

No total contam-se 800 sem abrigos. 800!? Pensei que fosse mais. 800 era fácil de resolver se houvesse vontade para isso. Custa-me pensar em pessoas a dormir na rua. Mas mais do que dormir na rua é a falta de contacto pessoal que têm. Porque viver na rua significa que não se tem família nem amigos que realmente se importem, e isso para mim é o pior. Muitos deles merecem a sorte que têm, mas para os sem abrigos poucas segundas oportunidades há. Há pouco tempo escrevi algo sobre isso numas páginas soltas que um dia podem dar num livro. Se fosse sem abrigo tinha mais tempo para escrever.

Corpos que se encovam sobre si mesmos na esperança de conservar o calor e o pouco de humanidade que lhes está na alma, já há muito vendida por entre as pedras frias da calçada. Faces sujas com o rasto das lágrimas de arrependimento derramadas sobre o resto da sujidade que o banho da semana passada não foi capaz de arrancar da pele gasta e esfarelada de tanto dormir no chão áspero e amargo. Gestos e posturas desistidas de vida, de oportunidades que não vão chegar para remendar, de culpa no âmago do ser por assim ter de ser. 
Na Estação do Oriente no Parque das Nações, onde nestes dias, no interior do Inverno, onde a Primavera ainda não ameaçava, acumulavam-se dezenas de sem abrigos. A arquitectura moderna e minimalista, de brancos e luzes brilhantes contrastavam com a escuridão das vidas que ali se mantinham quentes. Fatos e gravatas apressados a entrar para o metro e o comboio, ou para o parque de estacionamento onde tinham os carros, passavam ali alheados ao que os rodeava, talvez por já ser normal, por já terem visto aquilo vezes demais, ou talvez por o seu umbigo lhes toldar a visão.
O ranger dos carris do comboio e o chiar dos travões ligavam-se em sintonia ao ligeiro tremer do chão quando o metro passava embalando quem ali dormia ao relento, mas com um tecto que impedia a chuva. O fumo dos carros entrava por entre as correntes de ar que mantinham o frio constante agarrado ao granito que revestia o chão e ao cimento que segurava as paredes.
Por entre os sem abrigo, vêem-se voluntários munidos de recipientes com sopa de vegetais e outros de caldo verde, com pães e manteiga, aromatizando o ar e disfarçando a poluição. A música ambiente que vinha dos elevadores dá o toque final. Muitos que faziam daquela gruta construída pelo homem a sua casa, ou pelo menos a sua ponte. Maria conhecia-os pelo nome, quase todos, cada vez havia mais. Eles também a conheciam, reconheciam-lhe o gesto, eram gratos numa humildade desumana de quem deixou de ser gente há muito.
Desde o Sr. Zé, um alcoólico que perdera tudo o que tinha e que chorava sempre que contava a mesma história uma e outra vez sobre como se voltasse atrás tudo seria diferente. Sobre como a sua mulher o deixou e levou os filhos e ele sem forma de pagar seja o que fosse teve que fazer da rua o seu lar. Há mais de 10 anos que era assim.
Havia também o Rui, sem senhor no nome. O Rui tinha 30 anos e vivia há mais de metade da sua vida assim. Abandonado pelos pais fora acolhido por um tio paterno que resolveu fazer dele o saco de pancada. Começara quando ele tinha 12 anos, quando tudo o fazia prever, e escalara durante 3 anos. Visitou os hospitais, mentindo a médicos e enfermeiras como se os móveis fossem violentos como seu tio. Fartou-se e antes que ali morresse ou deixasse de querer viver fugiu e refugiou-se nas entranhas da cidade, pouco condescendentes para quem não sabe tratar de si. Mas cedo aprendeu, teve que ser.
Natasha, uma imigrante romena era outros dos habitantes daquela micro sociedade improvisada. Tinha vindo para Portugal em busca de uma vida melhor, e se aquilo era melhor do que tinha, Maria só podia imaginar como seria a sua vida antigamente. Vivia de mendicidade e de pouca dignidade. Falava o português por entre um sotaque acentuado de leste e um choro cantado, constante na sua voz escurecida pela cidade. Sonhava juntar dinheiro para trazer para cá a sua família ou para voltar para a Roménia, se por aqui continuasse assim a vida de oportunidades que veio procurar mas não encontrou.
Estes eram alguns dos rostos que decoravam os bancos e os muros de azulejos brancos daquele sítio. Maria sabia-lhes a história, o arrependimento, a descrença na vida mas sabia-lhes sobretudo o nome e quem eram. Sabia que aquela ajuda não era nada. Que não iria resolver nada a não ser aquela noite e talvez o dia de amanhã. Mas sabia também, que era importante para eles. Fazia com que acreditassem um pouco mais nas pessoas e na vida, que não era tudo mau, e que, naquele momento, sentissem uma alegria pura embora misturada com a tristeza de ter que ser assim.
Não gostava de ter preferidos, mas era impossível não os ter. Primeiro ela sabia bem que nem todos eram boas pessoas, nem todos tinham aprendido com os erros e nem todos davam valor ao que ela tentava fazer por eles. Leonardo seria dos seus preferidos se ainda cá estivesse, mas agora restava-lhe António. António era diferente de todos os outros. Tinha a inteligência e a cultura de alguém que não pertencia ali. Tinha a sanidade mental intacta no meio da sua forma diferente, honesta e crua de ver a vida e o mundo que o rodeava. Maria adorava conversar com ele, ou melhor, ouvi-lo nos seus monólogos de onde tentar sorver o máximo de conhecimento e experiência de vida que conseguia. Admirava-o por assim ser, livre de tudo por escolha própria. Era um conformado feliz, mas não conformado no sentido de que desistiu de lutar pelo que queria, conformado na forma do mundo girar muitas vezes ao contrario, ou de pernas para o ar.





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