21 de junho de 2015

Carta aberta de um cão abandonado



"Querido dono, faz hoje três dias que te esqueceste de mim aqui amarrado a uma árvore. Espero que esteja tudo bem contigo e que me venhas buscar assim que possas. Está muito calor e eu tenho sede, não bebo nada desde que me trouxeste a passear. Tenho fome também mas já comi umas ervas que sabiam mal. Estou preocupado que te tenha acontecido alguma coisa e que eu aqui preso não te possa salvar! Passou por aqui um esquilo que me disse que tu não te tinhas esquecido de mim mas que me tinhas abandonado de propósito, como tantos donos fazem agora que o verão começou e querem ir de férias à vontade. Eu rosnei-lhe e disse para se calar! Ele não sabe o que diz! Eu sei que tu eras incapaz de me abandonar... não eras? Eu sei que dava trabalho, que às vezes me portava mal e não aguentava passar um dia sozinho em casa sem ir à rua e acabava por fazer no chão da cozinha. Tu ralhavas muito comigo e até me batias e embora não tivesse feito por mal eu sei que a culpa era minha. Sei que às vezes estava frio e eu demorava muito tempo quando me levavas à rua. Sei que quando nasceu o João me passaste a dar menos atenção mas eu não levei a mal, compreendo, ele é teu filho e como se fosse um irmão para mim. Sempre fui um bom irmão para ele, lhe lambi as feridas e o protegi do aspirador mesmo que ele me metesse medo com aquele barulho ensurdecedor. Lembro-me bem de quando era pequeno, que me deixavas aninhar no teu peito e dormir no teu quarto. Que dizias a toda a gente que eu era um cão muito fofinho! Com o tempo foste-te afastando um pouco de mim, mas eu compreendo, estavas cheio de trabalho e chegavas a casa cansado e a querer estar sozinho. Eu tentava brincar contigo para te animar mas tu mandavas-me calar e ir para a minha cama, que agora já era na varanda. Uma vez eu não obedeci e tentei brincar mais contigo, ladrei e tudo para entrares na brincadeira e tu bateste-me. Deste-me um pontapé no focinho com muita força. Doeu-me muito e fiquei meio desorientado... não te guardei rancor, passados 5 minutos estava a pedir-te desculpa e tu não quiseste saber de mim. Só me levaste à rua no dia seguinte e eu aguentei até lá! Fui um bom cão, não fui? Peço desculpa se às vezes fui demasiado irrequieto, se pulei demais quando chegaste a casa e te cravei as unhas nas pernas, mas c
omo um cão meu amigo uma vez me disse "Se quem tu amas entra numa sala de cinco em cinco minutos, deves ir cumprimentá-lo e mostrar de gostas dele da mesma forma eufórica de cada uma dessas vezes". Se me vieres buscar vou-te receber de patas abertas, vou-te lamber a cara vezes sem conta e ser o melhor cão que um dono pode pedir. Por favor não demores muito, não sei quanto tempo mais consigo aguentar, já sinto o frio mesmo com este sol abrasador.

Do teu melhor amigo, Bobby"


Pois é, chegou o Verão e com ele vamos ver multiplicados casos como os do Bobby. Seja rafeiro, de raça, seja um gato ou qualquer outro tipo de animal de estimação. São abandonados sem peso na consciência, por donos que um dia acharam que queriam ter um brinquedo e que depois se fartaram dele. Por donos que levam essa palavra à letra e acham que ter um cão é apenas isso, ter. Não é afeiçoar-se a ele e tratá-lo como membro da família que ele quer ser.

Querem-no porque tinha um focinho fofinho, para entreter os filhos ou porque sim, porque é uma raça da moda e fica-lhes bem com a roupa.

Não pensam ou pior, não se importam, com o trabalho que ter um cão acarreta e cedo se fartam de ter que o levar à rua, de ter os chinelos roídos ou de ter que limpar os cocós e xixis no tapete da sala de estar. Eu compreendo que dê trabalho, já tive cães e sei que por vezes podem ser uma prisão. Sei que é chato ter que os ir levar à rua quando está a chover e chegámos do trabalho e só queremos vestir o pijama e aquecer os pés. Sei sobretudo que ter um cão é uma responsabilidade, que custa dinheiro e tempo, mas sei que compensa tudo isso com o amor incondicional que ele nos dá em troca.

Por isso queria deixar também umas palavrinhas ao dono do Bobby. És um excremento humano, um monte de merda sem princípios nem valores. Quem faz o que tu fizeste e é capaz de abandonar um ser que olha para ti como o melhor do mundo, que te ama sem querer nada em troca, quem é capaz de fazer isso não merece o h que tem no nome da espécie. És um merdas. Depois de o teres abandonado e deixado sozinho, amarrado a uma árvore sem poder lutar pela vida ou encontrar o caminho de volta para casa, devias ter tido um acidente que te incapacitasse para a vida. A morte era dar-te pouco, era ficares a comer sopa por uma palhinha e a cagar para um saco de plástico, acamado, o resto da vida, enquanto os teus filhos te iam gradualmente deixando de visitar, até ficares tu abandonado, sozinho e sem ninguém, a desejar ter morrido naquele acidente. Abandonar um cão não é o mesmo que matar um porco para comer ou gostar de touradas. Não é cultural nem é influenciado pela educação, é pura e simplesmente falta de valores humanos e morais. É não ter a capacidade de criar empatia por um animal que cada vez sabemos mais que de irracional tem muito pouco. Quem não consegue criar essa empatia depois de meses ou anos de convivência não pode ser boa pessoa. Não pensaste no trabalho que ia dar antes de o teres? Compraste-o com a mesma consciência com que compras um iPhone ou alugas um quarto para passar férias? Foi com essa irresponsabilidade que compraste um cão? Sim, digo compraste porque não o adoptaste de certeza. Aposto que o compraste numa loja, numa daquelas montras nojentas que os expõe como um brinquedo e aposto que foi assim que o viste. Um brinquedo giro que ficava bem com a mobília lá de casa, sem pensares que provavelmente ele ia alçar a perna para mijar essa mobília ou cravar lá os dentes porque tu não quiseste perder tempo nem dedicares-te a ensiná-lo a não o fazer.

Do fundo do meu coração e sem hipérboles, desejo sinceramente que morras. Há gente a mais no mundo e tu não fazes cá falta. Toda a gente erra, é certo, mas um acto como o que tu cometeste é premeditado, pensado e elaborado durante dias. É feito de forma reflectida e pensada. Não tinhas um amigo que ficasse com ele? Não sabias colocá-lo num site para adopção ou levá-lo a um canil? Tentaste alguma dessas coisas, ou também te dava muito trabalho ó meu filho da puta? Era mais humano que o tivesses morto. Que lhe partisses o pescoço ou o envenenasses. Qualquer uma dessas fazia de ti uma melhor pessoa. Agora deixar alguém que se considera como teu amigo preso numa mata para morrer desidratado, numa morte lenta que ele não consegue compreender? Em que saiu de casa e entrou no carro feliz a pensar que ia dar um passeio como tantos outros? Se é que alguma vez o levaste a passear. Como é que conseguiste virar as costas enquanto o prendias e ele olhava para ti? Como é que conseguiste não olhar para trás? Ou olhaste e viste-o a abanar a cauda a pensar que tudo era uma brincadeira e mesmo assim não cedeste? Mesmo assim não sentiste nada? Custou-te ou foi fácil? E porque o abandonaste? Querias ir de férias sem ter que o levar? Ficou maior do que o que pensavas? Ladrava e incomodava os vizinhos? Simplesmente fartaste-te? Seja qual for a razão, o que tu fizeste coloca-te na minha lista como lixo humano. Mesmo que se cumpra a nova lei dos maus tratos animais, a pena será pequena e branda para o que fizeste. Merecias ir preso e ser violado dia após dia no banho por um colega de prisão ironicamente chamado "Pitbull". 

Bem, já está. Tinha acabado de ver uma notícia que dava conta de que foram encontrados vários cães amarrados e abandonados e estava aqui uma raiva acumulada. Peço desculpa se estavam à espera de um texto com piada. Um bom início de semana para todos e não se esqueçam:

Nem um sem-abrigo abandona um cão, não sejas um filho da puta este Verão.





Gostaste? Odiaste? Deixa o teu comentário: