6 de março de 2016

A vida de um estudante de engenharia



Já lá vai o tempo em que estudava engenharia informática. Terminei o curso há cerca de 6 anos mas ainda tenho os traumas de guerra do meu Vietname que foi o Instituto Superior Técnico. Acho que será uma experiência transversal à maioria das faculdades de engenharia, mas antes de vos falar disso, vou contextualizar-vos e contar-vos como cometi o erro de me interessar por informática.

O primeiro contacto que tive com tecnologia foi aos seis anos, altura em que os meus pais compraram um computador lá para casa. Ninguém sabia ainda bem para que serviam os computadores, mas para mim serviu, na sua maioria, para jogar Prince of Persia e outros jogos. Lembro-me de sentir-me sobredotado por saber copiar disquetes para o disco com copy a: c: e de pensar que era um hacker por saber fazer format c:, especialmente quando o fiz ao meu computador e tive de dizer aos meus pais que foi um vírus.

Sabem aqueles vírus que nos faziam desligar o computador da tomada nas sextas-feiras treze para não ficarmos infetados? Éramos mesmo burros.

Pior do que isso só os dotes no canto da televisão! Aos treze anos tive o meu segundo computador, já com leitor de cd, e foi aí que decidi que queria ser engenheiro informático. Achei que ia ser muito bom nisso porque já dominava o painel de controlo do Windows e cheguei a instalar uma placa aceleradora 3D com estas mãozinhas talentosas. Para além de jogar, o computador servia para introduzir as disquetes que se rodavam na escola com fotografias da Jenna Jameson. Sim, já havia pornografia antes da internet mas era tudo mais difícil na altura, não havia cá stream em HD! Eram fotografias que iam aparecendo lentamente enquanto o leitor de disquetes fazia o barulho de um velho tuberculoso. A Jenna ia mostrando-se aos poucos, de cima para baixo, e, por vezes, devido às disquetes estarem mais corrompidas do que muitos dos nossos políticos, não aparecia a parte final da fotografia que normalmente era a que mais interessava, salvo algumas posições mais acrobáticas que ela sabia fazer como poucas.

Os padres sempre disseram que a masturbação faz mal ao cérebro e se calhar foi por isso que coloquei Engenharia Informática no IST como primeira opção quando me candidatei ao Ensino Superior. Lá entrei para a faculdade e, nos primeiros dias de aulas, percebi que tinha cometido um erro: não havia gajas! Em 170 vagas, entraram 8 raparigas e, para muitos, já eram mais do que eles tinham falado na vida toda sem ser através do ecrã do computador. Um caloiro disse durante as praxes que tinha ido para engenharia informática «por causa das gajas». Houve risota geral. Havia tanta falta que era comum vislumbrarem-se oasis tal como nesta conversa que ouvi entre dois rapazes:

- Aquela gaja ali de camisola vermelha não é má.
- Aquilo é um gajo de cabelo comprido.
- Ah ya. Ainda assim é menos feio que algumas das raparigas.

Mas quando se fala de conversas escutadas no IST, há uma mítica que me vem à memória entre duas raparigas:

- Não sei o que se passa. Quando falo com os rapazes parece que fico com a rata a arder.

Classe, meus amigos. Isto é classe! A conversa espalhou-se e claro que não faltou quem lhe quisesse besuntar a motherboard com massa térmica para aquilo arrefecer e fazer overclock, que é o termo nerd para "orgasmo". Era por esta escassez de fêmeas que o pessoal de engenharia informática invadia as esplanadas de civil e as bibliotecas de química, numa espécie de avalanche de borbulhas, óculos e calças de bombazina que leva tudo à frente de forma indiscriminada.

As aulas teóricas eram um suplício e a narcolepsia era geral: os olhos a fechar enquanto o professor falava excitado sobre integrais e diferenciais; as pálpebras a ficarem fechadas a cada iteração; a cabeça a cair a cada concordante acenar de cabeça dos alunos da primeira fila que tentavam esconder as ereções com as mesinhas de madeira, todas rabiscadas, dos anfiteatros do pavilhão central.

Se dizem que fazer uma direta faz pior ao cérebro do que uma bebedeira, então os estudantes de engenharia têm mais neurónios queimados do que o José Carlos Pereira.

Foram várias a fazer projetos, em casa, na Alameda ou no Tagus Park. Os dois campus são uma espécie de Nova Iorque: nunca dormem. Está lá sempre gente com malgas de café, olheiras e caras mais pálidas do que periquitos albinos: é uma espécie de Walking Dead, só que sentados em frente ao ecrã em horas intermináveis para acabar os três projetos dos três cadeirões que alguém decidiu que fazia sentido estarem no mesmo semestre. E faziam, no tempo em que os informáticos não tinham vida social. Qual o estudante de engenharia que nunca desejou que o prazos de entrega dos projetos fossem adiados? Assisti muitas vezes a pedidos desesperados de alunos a professores, quase de joelhos implorando para que lhes adiassem o sofrimento um pouco mais. Assisti também a professores a dizerem que se a turma toda estivesse de acordo o projeto podia ser adiado, e, nisto havia sempre um palerma que levantava o braço encanzelado e dizia «Eu não concordo. Eu já terminei o projeto e acho que adiar é beneficiar quem trabalhou menos.». Normalmente, era sempre aquele xoninhas virgem que sofreu bullying e que queria vingança só porque a sua falta de sexo e vida social lhe permitia terminar os projetos todos a tempo e horas.

Para além de colegas estranhos, o primeiro ano foi logo profícuo em professores cujo talento para dar aulas se assemelhava ao de uma cabra cega para jogar às escondidas. Foram vários aqueles que apenas debitavam matéria sem conseguirem entusiasmar a audiência, lendo slides e acetatos, ou como dizia um professor de redes, «as transparências» que datavam de 1989, mostrando que nem toda a gente do mundo das novas tecnologias faz por evoluir. Lembro-me com carinho de um professor, José, de nome e apelido igual ao de um ex-presidente do Sporting, que era o suprassumo na arte da Álgebra Linear e na de ser uma besta. Enchia quadros como o da imagem nas suas aulas práticas e ninguém podia falar, chegando a mandar alunos para a rua porque tossiam demasiado alto e faziam quebrar o seu raciocínio. Não dizia os L's, o que tornava tudo mais cómico, principalmente numa disciplina de Augebra Uinear, com imensos paraueuipipedos e trianguos. Uma vez fiz uma pergunta enquanto ele escrevia no quadro, ele olhou para mim e ignorou. Ficámos todos a tentar perceber o porquê e, de repente, ele diz-me «Para a próxima, carregue na técua que diz professor.». Riu-se e continuou a escrever embrenhado no seu mundinho assexuado e no seu ritmo alucinado, com dois dedos a pressionar a própria testa que o faziam chegar ao fim da aula com duas marcas vermelhas onde outrora ele havia tido dois chifres de belzebu. Outras frases emblemáticas do Zé:

  • «Bom, bom. Pouco baruio.»
  • «Não o quero mais na minha aua.»
  • «Não é você, é professor.»
  • «Como assim, não percebeu? Isto é triviau.»
O IST sempre teve a chancela de excelência, mas depressa se acomodou ao estatuto e deixou de se renovar. Foram poucos os professores que tive que realmente eram grandes formadores, mas também, verdade seja dita, foram poucos os que conheci porque quase não metia os pés nas aulas. A qualidade do IST está mais na exigência do que na qualidade do ensino, pelo menos na minha experiência. Um professor do primeiro ano disse «Nesta cadeira vamos usar linguagem C, mas não vamos ensinar linguagem C.» e é este o espírito do IST: querem os projetos feitos e perfeitos, mas não querem ensinar. O pessoal que se amanhe porque a vida é assim mesmo! Se calhar até têm razão, mas se é para isso podiam devolver as propinas no fim. 

Ainda têm a lata de pedir mais 250€ por um diploma que eu nem quero ter, da mesma forma que não tenho fotografias tiradas em funerais.

Tive vários professores péssimos que olhavam para os alunos como subalternos que não lhes mereciam respeito. Um professor de Análise Matemática I, certo dia, depois de tentar escrever com os marcadores no quadro e ver que todos estavam secos, começou a passar-se, a atirá-los ao chão e a resmungar entredentes. Gritou, enquanto arremessava um último contra a parede, e saiu da sala. Refilou com a empregada que estava à porta e foi-se embora, sem dizer nada. Ficou aquele silêncio que só se ouvia nos informáticos quando entrava uma rapariga com mamas grandes na sala. Sustinham a respiração porque qualquer brisa os faria tecer uma teia nos boxers do homem-aranha. Ficámos todos a olhar em redor, uns para os outros, a tentar perceber o que se passara. O riso começou a ecoar quando percebemos que ele não voltaria e, passo a passo, levantamo-nos e fomos embora. Eram 8h da manhã e tinha 18 anos e, talvez por isso, só agora é que perceba que aquilo foi uma tremenda falta de respeito para todos os que estavam ali a pagar propinas e a querer aprender.

Também tive bons professores, poucos, e alguns compreensivos. Lembro-me de um de Programação avançada. «Programação Avançada? Mas não tinhas sexo para fazer.», devem estar a perguntar alguns de vós e com muita razão. A cadeira tinha três projetos e no primeiro nem lhe toquei, o meu colega de grupo que eu não conhecia de lado algum disse-me que fazia aquele e eu depois fazia o segundo. O terceiro logo se via e fechamos acordo com um aperto de mão daqueles moles, tipo lula. Durante a discussão do projeto ele atrapalhou-se no quadro e o professor virou-se para mim:

- Pode ajudar o seu colega que parece que ele não sabe. - diz o professor.
- Eu também não sei essa parte...
- Então qual é que sabe?
- Nenhuma.
- Nenhuma? Como assim?
- Não toquei neste projeto. - as cabeças viraram-se todas na sala para mim e ouviu-se um frisson!
- Não sabe que isto é trabalho de grupo?
- Sim, por isso é que decidimos em grupo que ele faria este e eu faria o próximo.

Fez-se silêncio. No fim da aula o professor chamou-me à parte:

- Vou ter de lhe dar zero neste projeto. - diz-me.
- Ok. Não me parece justo, sabe perfeitamente que é um caso comum porque às vezes é difícil ter tempo para ficar cá e trabalhar em grupo e as pessoas não moram perto.
- Eu sei disso. De certeza que não foi o único caso... mas você admite assim para toda a gente ouvir! O que é que eu vou fazer agora?
- Eu compreendo, faça o que tem a fazer.
- Se calhar nunca vai ser rico e ter um Mercedes, mas se calhar vai ser mais feliz que eles todos porque é honesto. Continue assim. - diz ele, sorrindo.

Acabou por me dar a nota e eu realmente não sou rico e tenho um Clio de 2002. As discussões de projeto, ainda assim, não tinham tanta carga dramática como os dias de testes e exames.

Os dias de exame, especialmente aos Sábados de manhã, eram uma espécie de Dia de Todos os Santos, com filas de pessoas cabisbaixas, chorosas e com saudades do tempo em que ainda estavam vivas por dentro.

Havia vários tipos de pessoa à espera que aparecesse o coveiro, vestido de professor, para abrir a porta e dar início às cerimónias fúnebres:
  • O gajo que rezava ao santo Bill Gates, usando um terço feito de microchips.
  • O gajo que estava nauseado, a tremer, e que entrava em sobressalto sempre que se ouvia alguém a aproximar.
  • O gajo descontraído como se aquilo para ele fosse a coisa mais fácil do mundo, mas só porque sabia que as probabilidades de passar tendiam irreversivelmente para zero.
  • O cromo que está a fazer melhoria porque só teve 19 na primeira fase.
  • O gajo que tinha no olhar a expressão «Mas o que é que eu ando a fazer à minha vida».
Acho que me enquadrava mais no último. Desde que entrei, todos os anos pensava em mudar de curso. Disseram-me «Isto a partir do terceiro ano melhora, as cadeiras são mais fixes.». Mentiram-me. Só piora porque o cansaço e a desmotivação por se estudar algo que não se gosta assim tanto, vai acumulando-se. O aproximar do fim do curso e a perspetiva de ir trabalhar em algo que não se gosta faz com que tudo se torne pior. Tenho um pesadelo recorrente em que ainda não acabei o curso onde sonho que me esqueci de fazer uma cadeira e que ainda vou ter de lá estar mais um ano. Depois acordo em posição fetal a chorar por já não estar a estudar mas sim a trabalhar. Porque verdade seja dita, mesmo com tudo isto, são sempre os melhores anos da nossa vida. Para mim esses anos foram oito. Não, não estive em nenhuma tuna.

PS: Sobre a vida de consultor informático já falei aqui neste texto.





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