27 de março de 2017

Coisas que acontecem nos jantares de anos



Os jantares de aniversário fazem parte da nossa vida desde que nos lembramos. Sejam em casa com a família quando somos pequenos; num parque de merendas com a família e colegas da escola primária; até ao típico jantar num restaurante com os amigos, a partir da altura em que os nossos pais nos deixam festejar sem eles embora sejam eles a pagar na mesma. Estes últimos são um ritual que nos acompanha durante anos e recheados de vários lugares comuns.

Primeiro, a marcação do restaurante. Ao longo dos anos vamos percorrendo todos os restaurantes com menu de grupo do distrito e arredores. Inicialmente, nunca ligávamos à qualidade da comida: o importante era a quantidade, mas, principalmente, a bebida à discrição. Com o passar dos anos, vamos ficando mais picuinhas com tudo e os típicos bifinhos com cogumelos e bacalhau com natas já não servem para os nossos requintados e envelhecidos palatos. A sangria já parece sumo e o vinho da casa torna-se vinagre, mas o que nos faz mais confusão são aqueles restaurantes cujo barulho de fundo faz lembrar uma cantina espanhola onde toda a gente está a tentar fazer com que os estrangeiros surdos consigam ouvir. Depois de uma exaustiva pesquisa online acabamos por escolher um restaurante com base na localização porque o que interessa é depois ir para os copos sem ter de pegar no carro, caso contrário o que pagamos pela bebida infinita é desperdício. 

O drama da marcação continua quando só confirmaram doze pessoas, mas marcamos para quinze a pensar que alguns dos que estão pendentes digam que sim à ultima da hora. Como sempre, vai acontecer o contrário e apenas vão aparecer dez já que há sempre um casal que se vai cortar à última da hora com o nosso amigo a ligar-nos, de voz cabisbaixa, a dizer «Puto, não vai dar para ir... surgiu uma cena aqui...». Já sabemos que foi a namorada que fez uma cena à última da hora, como é seu apanágio. Ficamos tristes pela ausência do nosso amigo, mas contentes porque não vamos ter de aturar a namorada dele.

No processo de marcação segue-se a definição da hora. Marcamos o jantar para as 20:30h, mas dizemos a toda a gente que é as 20h, já a contar com os atrasos. Há um ou dois amigos aos quais dizemos que é as 19h ou, em alguns casos mais graves de atrasados crónicos, dizemos que é um lanche às 17h para ter a certeza que eles aparecem a tempo de jantar. No entanto, como toda a gente recorre a esta estratégia, o pessoal já desconfia que o jantar não é mesmo às 20h e só começa a aparecer às 21h. Chegamos cedo e esperamos uma hora na qual tentamos convencer o senhor do restaurante a dar-nos já bebida e ele diz que só quando estiver toda a gente e a comida for servida. «Vais levar uma estrela no Zomato...» pensamos. Entretanto, aparece um convidado pontual que é sempre aquele colega novo de trabalho que só convidámos por simpatia e com o qual não temos grande conversa. Fica um ambiente estranho, com várias olhadelas para o telemóvel, e comentários a constatar o óbvio: «O pessoal parece que está atrasado..» e «Já comia qualquer coisa...».O resto dos convidados chega e começa o famoso jogo das cadeiras: o aniversariante fica no meio e como nem toda a gente se conhece é preciso fazer engenharia para que ninguém fique isolado.


«Cheguem todos um lugar para a esquerda!», dizemos como se fossemos uma espécie de arrumador de pessoas.

Depois de conseguirmos sentar toda a gente podemos, finalmente, pedir a comida. São cerca das 22:30h, por esta altura. O restante do jantar pode ser descrito com o auxílio da pintura da Última Ceia de Jesus Cristo em quatro bonitos quadros.






No fim, há sempre o grupo dos bêbedos que vai pedinchar mais uma bebida aos empregados que dizem sempre «Isso tem de ser com o dono!». Chama-se o dono e há sempre alguém que diz: «Ó chefe, mais uma cervejinha para a viagem, pode ser?». É a resposta a esta pergunta que vai definir se voltaremos para o ano ou não.





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