21 de março de 2017

Maestro gay, a Igreja e a homofobia



Quem olhar para a Igreja Católica, de relance, pensaria que seria o local ideal para um homossexual ser feliz: vestidos compridos, chapéus com brilhantes, jóias reluzentes e um clube só de homens onde as mulheres têm um papel secundário. No entanto, se a homossexualidade fosse uma bactéria não haveria ambiente mais antisséptico do que a Igreja. Falo da polémica com o maestro que dirigia o coro da igreja de Castanheira de Pera e que foi afastado, dizem as más línguas, por ser gay. 

Começaram a desconfiar quando o repertório do coro da Igreja começou a incluir Lady Gaga.

Querem melhor maestro para dirigir o coro na Missa do Galo, ou como se diz em inglês, Cock's Mass? O vigário, termo que me faz sempre lembrar vigarista, deve ter ficado com medo que aquilo passasse a ser a Missa do Pavão com plumas e travestis e de só poder ficar a ver, coitado. Era de esperar que os padres adorassem gays, já que ambos têm em comum o facto de não apreciarem vagina. Haverá padres que não são homofóbicos, claro, talvez a maioria, quem sabe, mas a verdade é que a religião organizada ainda é a mãe de todas as discriminações. Não é por acaso que a Santíssima Trindade tem um pai, um filho e um espírito santo e não tem nenhuma mulher. A Igreja consegue fazer com as mulheres o que muitos homens gostariam: que fiquem em clausura em casa e, principalmente, que façam voto de silêncio e não chateiem levantem a voz.

Bem, mas voltemos ao espírito maligno do homossexualismo, como diz o pessoal da IURD. Não percebo a fixação da Igreja na utilização que cada um faz do seu próprio cu. Acho que tudo nasceu na inveja da liberdade que uns têm de assumir a sua sexualidade que enfureceu um clero recalcado pelos seus micro-pénis que violam crianças porque uma mão pequena faz com que se sintam de tamanho médio. A mesma Igreja que pede respeito pela fé de cada um e pelas suas escolhas, é a primeira a discriminar os gays. Há aqui duas hipóteses: ser gay é uma escolha e, como diz a Igreja, as escolhas que não prejudiquem os outros devem ser respeitadas; ou ser gay não é uma escolha e foi Deus que os fez assim. Acredito mais na segunda até porque Deus, a existir, deve ser a maior bichona de sempre e digo isto como um elogio. Já viram as cores rosadas do pôr do sol? E o arco-íris? Aquilo é obra de um gay com queda para o design de interiores. E as borboletas? Aqui foi, nitidamente, Deus a tentar emendar um erro: «Credo! Que lagarta nojenta que eu criei! Não devia ter bebido tantos daiquiris ontem! Pensa, Deus, pensa... ah, já sei! A lagarta vai entrar num casulo e sair de lá uma borboleta com asas pintadinhas com mais cores do que uma parada gay! FA-BU-LO-SA!». Voltando ao caso, é óbvio que a culpa é do maestro!

Um gay ir enfiar-se no seio da Igreja Católica é o mesmo que um preto querer fazer parte do Klu Klux Klan.

Já sabem que não são bem-vindos para que é que vão lá provocar as pessoas? Já não se pode discriminar à vontade na casa do Senhor que tem de vir um larilas ensinar a criançada a dançar o YMCA? Estamos a falar da mesma Igreja que protege padres pedófilos. Que não os afastou e, até, encobriu as atrocidades que fizeram aos meninos de coro. Uma Igreja com esse historial não tem moral para afastar um maestro por ser gay, mesmo que ele obrigue essas mesmas crianças a cantar Madonna.

Como ateu, já me custa perceber quem é católico, mas ainda me faz mais confusão quem é gay e quer fazer parte do clube onde não cumpre os requisitos para jogar. Acreditar em Deus e Cristo e isso tudo, percebo e não tenho problemas com isso, mas estar no seio de uma Igreja que desde sempre desprezou, para não dizer que perseguiu e matou, homossexuais, faz-me confusão. O engraçado é que a Igreja Católica cada vez mais rejeita o Antigo Testamento até porque parecia mal, em pleno século XXI, adorar um Deus que faz Satanás parecer um menino, mas no Novo Testamento não há passagens sobre a homossexualidade e, que se saiba, Jesus nunca se mostrou preocupado com o que os seus apóstolos metiam no rabo. No antigo testamento, ter um pénis e gostar de outros pénis dava pena de morte. É um Deus rancoroso para quem estraga o seu design eficiente e toda a gente sabe que o cu foi feito para defecar. Percebo, também me irrita quando criava aplicações informáticas e percebia que os utilizadores não sabiam interagir com aquilo. Um gajo tem de ter sempre em conta que os utilizadores são burros e Deus esqueceu-se de fazer testes de usabilidade independentes. 

A Igreja, no tocante a questões de sexo, devia praticar o que advoga: abstinência. Abster-se de comentar. Ninguém quer ouvir senhores de meia idade, virgens ou quase, vestidos como se todos os dias fossem Carnaval, a mandar bitaites sobre como cada um deve viver a sua sexualidade. É o mesmo que o professor substituto ser licenciado em História e mesmo assim querer seguir o programa de Matemática e dar a aula de Números complexos e Imaginários. Por isso, façam o que eu faço quando alguém está a discutir qual é o Salmo mais bonito da Bíblia: admitam que não percebem nada do assunto e calem-se. Se, para esses, acreditar na legitimidade do amor entre duas pessoas do mesmo sexo é mais complicado do que acreditar que Nossa Senhora apareceu no cimo de uma árvore, calem-se. Já agora, se Maria tivesse realmente aparecido, em vez de três segredos, tinha feito o que qualquer mãe faz quando vão amigos lá a casa: mostrava fotografias de Jesus no banho com dois anos. 

«Ó Guilherme, estou ofendido por fazeres pouco da minha religião!», pensam alguns. Olhem, e eu estou ofendido por a vossa religião existir e perpetuar preconceitos. E agora, como fazemos? Fica cada um ofendido para o seu lado e pronto, pode ser? Respeito a vossa fé, não me peçam para respeitar uma instituição mafiosa que foi inventada por homens, gerida por homens, e que tem como maior preocupação o dinheiro, poder e os lobbies políticos. Só para os católicos se sentirem melhor, deixem-me só dizer o seguinte:

Se o Cristianismo fosse um manicómio, os Evangélicos estavam naquela ala com as paredes todas almofadadas.

Daqui a pouco tempo o Papa Francisco vem a Portugal e apesar desse grande defeito que é ser o chefe máximo de uma organização podre, tenho simpatia por ele. Parece-me boa pessoa e genuíno na vontade de melhorar a Igreja. Gosto de pensar nele como o Obama da Igreja: é cool; temos ideia de que queria fazer mais, mas não o deixam; vai deixar saudades; também é responsável indirecto por muitas mortes de inocentes. É um papa progressista que diz «Se alguém for gay (...) e íntegro, quem sou eu para julgar?», mas que depois é contra o casamento entre casais do mesmo sexo. Enfim, toda a gente sabe que contrair o santo matrimónio só faz sentido assim: «Declara-vos marido e mulher, pode beijar a costela.»





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