1 de março de 2017

Em defesa do João Braga



Estava a gozar, o título foi só para vocês clicarem. Estou a brincar, a primeira frase do texto foi só para vos arreliar por terem sido enganados. Na verdade, este texto defende, em parte, o João Braga. Defende o seu direito a ser palerma, direito que nos dias de hoje está ameaçado. Chamem-me retrógrado, mas acho que a estupidez deve estar a céu aberto e acho que essa é uma das muitas vantagens da liberdade de expressão. Prefiro um mundo onde os racistas e homofóbicos dizem o que realmente pensam que é para saber quantos e quem são e mudar de passeio quando os vir ao longe, não vá a estupidez ser contagiosa. Depois deste interlúdio, passemos a analisar em detalhe a publicação do João Braga, que entretanto foi apagada, não sei se por ele ou devido a denúncias recebidas pelo Facebook, mas a esse ponto já lá vamos.

Como pessoa inteligente que sou, antes de partir para o insulto e dizer que o João Braga é um ignorante, quero saber as razões que o levaram a dizer o que disse e depois, sim, achincalhá-lo com classe. Primeiro, a parte em que ele se refere aos gays é só falta de cultura geral. Toda a gente sabe que os gays sempre ganharam todo o tipo de prémios no mundo do espectáculo. Aliás, se fosse regra todos os actores gays apenas fazerem personagens gays, 90% dos filmes que sairiam de Hollywood, anualmente, seriam uma espécie de «Gaiola das Loucas», o que seria bom pois é um excelente filme. Já agora, um filme com uma família gay traduzido para «A Gaiola das Loucas», nos dias de hoje, seria alvo de todo o tipo de críticas e boicotes por parte de activistas do Facebook. Portanto, a última parte da frase é apenas falta de cultura geral do João e é perigosa porque é enganadora: pode levar um gay desatento a pensar que andam a distribuir Oscars à porta dos Armazéns do Chiado.

A primeira parte da frase, onde ele refere que basta ser-se preto, é que me parece ter sido o que enfureceu as multidões facebookianas. Se me permitem o atrevimento, eu percebi porque é que ele disse isso. Porque é um palerma? Sim, também, mas devido à polémica do ano passado onde vários grupos se queixaram de haver poucos actores pretos nomeados. Devo confessar que achei essa polémica um bocado descabida e um efeito secundário perigoso do politicamente correcto em que vivemos. Primeiro, porque o problema estará na oportunidade (falta dela) dada a actores negros e à falta de investimento nos filmes cujos guiões se baseiam em personagens negras por, potencialmente, gerarem menos receitas, porque há mais brancos do que negros nos Estados Unidos. O problema está aí e não em querer que se nomeie à força actores só por serem negros, mas foi essa mensagem que, em parte, aquela campanha passou, com ou sem intenção. E, quer gostem de admitir ou não, foi essa campanha que levou a estas declarações do João. Essa campanha, tal como seria de esperar, fez com que aos olhos de muita gente, todos os actores negros que  ganhassem um Oscar a seguir o tenham conseguido apenas por pressões políticas e para parecer bem. Por exemplo, a Viola Davis foi nomeada para actriz secundária apesar de ter uma papel principal no filme «Fences». Não deixa de ser estranho e parece que foi um favor para que ela ganhasse o Oscar, já que o de actriz principal estaria reservado à Emma Stone. É óbvio que a Academia teve em conta a polémica do ano passado, mas se calhar a Viola até merecia o Oscar de actriz principal em vez da Emma. Por isso, a diferença entre ser racista ou não, não é admitir que possa ter havido favores, mas sim ficar ofendido com isso só desta vez.

A Academia sempre fez favores e sempre se moveu por política e dinheiro, o problema é que o João Braga nunca se importou com isso.

Importa-se agora, quando viu a balança pender para o lado dos pretos. É isso que o faz ser um palerma preconceituoso. É a mesma coisa que no caso do OJ Simpson. A questão não era se ele era culpado ou não, mas sim o facto de, pela primeira vez, um preto ter conseguido fintar o sistema! O racismo viu-se nos brancos escandalizados com esse facto quando nunca o ficaram com os milhares de brancos que sempre conseguiram escapar impunes. Portanto, é isto que está na génese das palavras do João. Não sei se ele é racista ou homofóbico, mas tem, provavelmente, um piquinho de preconceito a correr-lhe nas veias marialvas. Porquê? Porque pensou no assunto e decidiu publicá-lo. Porque ao ver os Oscars ganhos achou automaticamente que eram um favor e não eram merecidos e, arrisco aqui com 99% de certeza, que não viu os filmes todos. É essa intenção que está por trás daquele post que o torna uma palermice.

Por fim, uma palavra para a tropa PIDE do Facebook. Como disse, o post do João Braga foi apagado e tinha lido nos comentários muitas pessoas a dizer que já tinham denunciado ao Facebook para ser apagado. Isto é só parvo. Primeiro, porque mesmo que as palavras do João Braga sejam racistas e homofóbicas, não vejo que sejam um incentivo ao ódio ou violência. É só a opinião dele. Ao ser apagado, alguém que tenha ficado alheio a esta polémica e um dia o João Braga lhe peça amizade, vai percorrer o feed dele e pensar: «Olha, este gajo parece-me porreiro. Canta fado e tal. É do Sporting, mas é monárquico, mas bem, ninguém é perfeito.» sem ver aquela publicação dele. Não é muito melhor deixarem aquilo ficar lá para que essas pessoas saibam o que ele e como ele pensa? Não é melhor ficar lá para quando o quiserem contratar para ir cantar num casamento interracial e homossexual verem que que afinal é melhor chamar outro? Tenham juízo e parem com isso. Deixem as pessoas ser estúpidas à vontade. Se fomos censurar toda a gente damos por nós a pensar que vivemos num país onde não existe ninguém preconceituoso e nunca vamos fazer nada para o mudar.

Vamos ter a merda toda coberta por tapetes que embora não se veja, cheira mal na mesma.

A ignorância combate-se a tentar perceber o outro lado e não com manadas de hienas que não têm mais nada do que fazer do que deixar insultos gratuitos nas caixas de comentários. É por vossa causa que o Trump foi eleito, lembrem-se disso. Não só, mas também.

Depois desta análise e de tentar perceber o que está por trás de umas declarações aparentemente racistas e homofóbicas, é que podemos tirar uma conclusão inteligente sobre o assunto. E essa conclusão é que o João Braga é um cocó.





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