22 de janeiro de 2014

O Hitler queria ser pintor



O meu irmão, quando era pequeno, dizia que queria ser médico da pica ou dragão com fogo, para assar castanhas. Uma criança que vive na Buraca e fantasia com agulhas teria tudo para correr mal, mas, felizmente, hoje em dia, esta é muito feliz e conseguiu juntar o melhor dos dois mundos: vende castanhas no Rossio, para sustentar o vício que tem na heroína. Estou a brincar. Antes fosse. Infelizmente é designer. É quase a mesma coisa, mas com menos saídas profissionais. O que leva uma criança a deixar de querer ser dragão com fogo e assador de castanhas, para ser designer? A criatividade que se perde em menos de vinte anos… O mundo faz-nos isto. Temos sonhos e arrumamo-los na gaveta do fundo juntamente com as recordações de amores passados. Ficam ali. Não gostamos de os deitar fora, mas também nunca mais lhes vamos mexer.

Pensei nisto porque dei por mim a perguntar se a arte pode salvar o mundo. Não por achar que é a mais importante das áreas e a que devemos valorizar mais, mas porque, normalmente, os artistas são os únicos que trabalham no que realmente lhes dá prazer e porque são os únicos que criam para outros sentirem.

Ninguém se emociona ao saber das novas descobertas na área da medicina ou da tecnologia como se emociona a ouvir Mozart, Queen ou Ana Malhoa.

A imagem no cimo do texto é uma das pinturas de Adolf Hitler. Sim, ele queria ser pintor. Era o sonho dele. Mas, depois de ser rejeitado pela Academia de Belas-Artes de Viena, decidiu que o genocídio era a sua segunda área de interesse. Não é uma acção/reacção, obviamente, mas se ele tivesse entrado e seguido a sua paixão, teria ele, mais tarde, enveredado pelo caminho complicado e com poucas oportunidades de emprego que é a de ditador absolutista e carniceiro? Não sei. Mas gosto de pensar que as coisas teriam sido diferentes. Hitler era um génio. Do mal. Mas um génio. Poderia ele ter sido genial noutra área? Não sei. Que ele tinha pancada na cabeça, disso não há dúvida, e que nada desculpa o que ele fez, claro que não. Mas poderia ter sido diferente? Acho que sim. Se tivesse sido motivado para fazer aquilo de que gostava, pela sociedade, e pelos que o rodeavam. E, se tivesse conseguido entrar na Academia de Belas-Artes de Viena, talvez não houvesse Holocausto. Basta mexer numa variável pequena para alterar o resultado final, e essa, claramente, é uma variável maior do que a maioria. Poderia ter sido um pintor sociopata e com uma pancada tremenda na cabeça, mas muitos dos de hoje também o são. Muitos dos CEO de grandes empresas também.

Por todo o mundo, a hierarquia das disciplinas que nos ensinam é a mesma. Matemáticas e Línguas no topo, Humanidades a seguir e a Arte no fundo. Há uma história engraçada, contada brilhantemente na palestra TED «Do schools kill creativity?», que conta o caso de uma miúda de oito anos. E de como a sua mãe foi chamada à escola por os professores considerarem que ela tinha um défice de aprendizagem e/ou hiperactividade. A mãe levou-a a um especialista. Depois de falar com elas em conjunto, disse à miúda que iam falar em privado e que ela teria de ficar no gabinete sozinha. Ao saírem, o especialista ligou o rádio, fechou a porta e disse: «Observe a sua filha.» E a mãe e ele viram que, no minuto em que eles saíram e a música começou, ela se levantou e começou a dançar, e ele disse: «A sua filha não está doente nem tem problema nenhum. Ela é uma bailarina. Leve-a a uma escola de dança.» E a mãe seguiu o conselho. O nome dela é Gillian Lynne, e acabou por se tornar numa das mais famosas bailarinas e coreógrafas do mundo.

A maioria dos pais, principalmente nos dias de hoje, tê-la-ia posto num psiquiatra e enchido de calmantes. Quantos artistas se perderam e pessoas infelizes se ganharam com este método de educação e de sociedade que esmaga a nossa criatividade? Isto é apenas uma premissa para deixar a pergunta no ar. Não podemos ser todos artistas, claro, mas não há incentivo da parte da sociedade, do sistema de educação, dos pais, para sermos artistas e criativos. Nunca ninguém me disse: «Gostas de escrever? Então, porque não te dedicas a isso?» Sou engenheiro informático, Artes é pouco comigo, e até acho que a arte contemporânea muito poucas vezes é arte. Um quadro branco com um ponto não é arte, é parvoíce. Pessoal a urinar para cima de jornais com fotos de políticos não é arte; caso contrário, todos os cães seriam artistas.





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