3 de março de 2015

Pedro e os recibos verdes... laranjas



Então parece que o nosso Primeiro Ministro não pagou as contribuições à Segurança Social durante 1999 a 2004? Diz que não sabia nem foi notificado. Está giro, sim senhor. Teve o Pedro um tratamento privilegiado? Não, que ideia tola a vossa! Vejamos a cronologia:
  • Pedro "não sabia" que tinha que descontar para a SS de 1999 a 2004;
  • Pedro não é notificado em 2007, quando muitos outros são;
  • Pedro vê a dívida prescrever em 2009;
  • Pedro "apercebe-se" da dívida em 2012 mas diz que agora não lhe dá jeito pagar, que paga depois;
  • Pedro paga em 2015, diz que nem era obrigado a isso e que a culpa não foi dele;
  • Pedro, já em 2016 depois de perder as eleições, continua a sua boa vida na oposição ou como consultor externo a ganhar 5 dígitos numa empresa de um amigo.
Vamos agora supor que o devedor era outro, sem carreira política nem amigos influentes:
  • Guilherme "não sabia" que tinha que descontar para a SS de 1999 a 2004;
  • Guilherme é notificado em 2007 que deve;
  • Guilherme diz que vai pagar assim que receber o próximo ordenado;
  • Guilherme vê as suas contas congeladas penhoram-lhe o seu Renault 19 e a sua colecção de minerais da Planeta Agostini;
  • Guilherme diz "Tenham calma, que eu vou pagar!" e acaba preso por falar num tom de voz acima dos limites da lei do ruído;
  • Guilherme é violado no duche por um Angolano chamado Wilson;
  • Guilherme sai da prisão e ninguém lhe faz um contrato de trabalho;
  • Guilherme arranja trabalho a falsos recibos verdes num bar na Brandoa que é do primo do Wilson.
Sim, eu sei que é um pouco irreal, já que ninguém me acha atraente o suficiente para me violar. Vamos dar o benefício da dúvida ao Pedro e pressupor que realmente pode ter sido tudo esquecimento e/ou ignorância em relação às suas obrigações e não uma tentativa de meter ao bolso sem ninguém notar. Mesmo que admitamos essa hipótese, o seu significado é ainda mais tenebroso. 

Significa que aquele que foi eleito para governar este nosso cantinho à beira mar quase afogado, não sabe bem como é que as coisas funcionam.

Não sabe a lei, as suas obrigações de contribuinte e de como um bom cidadão deve proactivamente verificar se está dentro da lei e não ficar à espera de ser notificado, numa atitude do deixa andar, tão criticada por quem está lá em cima. No fundo dizer que "não sabia que era essa a sua obrigação", não passa de uma pieguice cobarde de quem não sabe admitir os erros. Era obrigá-lo a tirar um curso de contabilidade nas novas oportunidades.

No entanto, estou em crer que esta notícia tem os seus pontos positivos e que pode vir a ser extremamente benéfica para todos os trabalhadores a recibos verdes, especialmente os falsos. Acho que agora o Pedro finalmente percebeu, que trabalhar a recibos verdes não é um mar de rosas, nem de laranjas, que há mais descontos do que os que ele imaginava. Ele próprio deve estar a pensar "Realmente, bem que me diziam que trabalhar a recibos era uma merda, eu nunca percebi porquê, até dava para ficar com bastante, mas agora sim, já sei o que o povo sente!".

Como vimos na cronologia, o Pedro já sabia que devia desde 2012, altura em que foi confrontado por um jornalista. No entanto, preferiu não falar de nada nem regularizar a dívida, dizendo que iria pagar após deixar de exercer funções governativas. Já tinha prescrito, até compreendo, o que não compreendo é que durante o seu mandato, por muito menos dinheiro, se tenham penhorado casas, carros, ordenados inteiros por quantias irrisórias de simples e comuns mortais, que talvez por não terem acesso ao recibo laranja, ou rosa, que uma carreira política dá, ficaram ainda mais na miséria. Pode tudo ter sido um erro e um mal entendido, mas um Primeiro Ministro saber que foi beneficiado por tal erro, enquanto outros empobrecem e se lhes vê ser retirado o pouco que lhes resta é só nojento. "Ai Guilherme só sabes mandar bitaites, então qual seria a solução?". Não sei, mas eu não fui eleito para governar isto.

Por mim era retirar-lhe directamente da reforma tudo o que ele não pagou a tempo e horas, com juros iguais à percentagem de votos pela qual ele foi eleito. Vezes os metros daqui até à lua, só para ser um número redondo.

Até o timming desta notícia é triste. Algo enterrado há tanto tempo vem a lume em ano de eleições por mera coincidência? Claro que não, o que só quer dizer que as coisas se sabem, mas a verdade só vêm à tona quando interessa. É mais uma nuvem que vem pairar e deixar ainda mais na sombra a política portuguesa. Um nuvem que pelos resultados sucessivos das eleições é de chuva molha-parvos. Quanto temos um ex Primeiro Ministro preso preventivamente, o actual envolto neste escândalo e com fumo ao redor de outros, um Presidente cujos amigos e vizinhos são no mínimo questionáveis, que levaria qualquer boa mãe a mudar o seu filho de escola e até de cidade. Com ministros com licenciaturas compradas em saldos e outros cuja reputação vai mais ao fundo que um submarino. Quando temos isto tudo mas a maioria insiste em ter amnésia selectiva de 4 em 4 anos, como é que podemos ter esperança que isto vá ao sítio? Não vai. Nunca vai. Vai ficando melhor, depois pior, depois melhor outra vez. Sempre naquela corda bamba, milimetricamente esticada para que o sistema não desabe e quem está em cima por lá continue. Quem está por baixo vai-se queixando de mini na mão e cigarro no canto da boca, enquanto diz que são todos uma cambada de filhos da puta.

Eu cá, em vez de me queixar, sempre que puder recebo em dinheiro e por fora, pela chamada porta do cavalo, já que andamos a levar coices e a limpar a estrebaria. É assim que o ciclo se mantém, o exemplo de cima é o pior, quem começa por baixo e eventualmente subir já vai jogar com dados viciados. "Garbage in, garbage out (...) The public sucks. Fuck hope.", já dizia o grande George Carlin.





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