25 de abril de 2014

25 de Abril, celebrar ou reivindicar a democracia?



Pois é, parece que é 25 de Abril, dia da Revolução e de todas essas coisas bonitas. Hoje tenho um casamento de um amigo. Contrair matrimónio no dia da liberdade é bastante irónico. Estou com um bocado de pressa porque quero ver se me embebedo antes de ir para a Igreja, caso contrário não há paciência para ouvir o padre. Vamos então a isto que vai ser breve.

Hoje é dia de relembrar a crise com a nostalagia dos anos 70. De relembrar as promessas de Abril que nos foram roubadas sem nos lembrarmos que essas promessas eram fruto da imaginação de um povo em euforia. A crise é chata. É terrível para muita gente. Dá fome e miséria a muitos que nunca pensaram tê-la e aos outros que já lá estavam tira-lhes o sonho de lá saírem. Rouba a liberdade porque se passa a ser escravo das necessidades do dia a dia que não se conseguem subjugar. É por isso, um dia simbólico para manifestações e críticas à (des)governação do país. É triste que assim seja, mas é no que se tornou o 25 de Abril nos últimos anos.

Mas hoje, mais que reivindicar, deveria ser dia de relembrar aqueles que se revoltaram antes de nós, e por nós. Que conspiraram nas costas de uma ditadura e contribuíram para a mandar para o caralho. Aqueles que souberam dizer não à repressão e à censura e não se conformaram com o "vamos andando" e "é a vida". Aqueles que tiraram as ideias da gaveta e fizeram-nas marchar, numa marcha pacífica e organizada, com Zeca Afonso e Paulo de Carvalho em banda sonora. Aos que permitiram que hoje eu esteja aqui a escrever, e tu a ler, sem teres um gajo da PIDE ao lado a esborratar-te o ecrã com um marcador azul daqueles que depois nem com álcool sai a bodega.

Quando oiço pessoal a dizer que faz falta é um Salazar e que ele é que punha as contas em dia, dá-me uma volta do estômago. Principalmente porque normalmente é um taxista e andar de carro a pendura dá-me náuseas. Claro que havia gente que vivia melhor nessa época do que agora. Os que não pisavam o risco, não tinham ideias próprias e diziam que sim a tudo viviam melhor, principalmente porque não sabiam o quão melhor podiam estar. Por isso ou por não terem inteligência para ambicionar exercer o livre arbítrio sem censura e repressão. Para quem não valoriza a liberdade de opinião a vida era melhor com o Dr. Salazar. Mas quem não valoriza essa coisa chamada liberdade não merece opinar. A empobrecer um povo à força do conformismo, da proibição e punição, também o meu avô acamado metia as contas em dia do País. Bendito caruncho que lhe roeu a perna da cadeira e o fez dar de cornos na laje. Pena não ter dado com o mindinho do pé descalço num móvel, enquanto pisava uma peça de lego, se entalava na braguilha e queimava a língua com um chá de estriquinina.

Por isso e apesar de tudo, hoje é dia para se celebrar. A crise magoa, especialmente no rabo, porque com a fome emagrece-se e ao sentar bate-se com o osso na madeira. Mas a ditadura deve doer dentro da alma. Ser escravo do trabalho deve ser menos mau do que ser escravo das ideias que não podemos dizer, nem quase pensar, porque nos amarram a imaginação num totalitarismo de algemas invisíveis. Hoje é dia de exaltar o que temos, o que conquistámos há 40 anos. Ou o que outros conquistaram porque eu não tive nada a ver com isso. É dia de dar valor e irmos para a rua celebrar num ajuntamento que nos é agora permitido. Deixem as manifestações e reivindicações para os outros 364 dias do ano, porque hoje até é falta de respeito sobrepor as nossas queixas aos feitos heróicos de quem tinha muito menos do que nós temos agora.





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